sábado, 14 de janeiro de 2012

as 10 músicas principais do punk

Não há melhor coisa para semear a discórdia entre os homens (e as mulheres) do que... listas. Aquela história de que gosto não se discute é balela. As preferências estão intimamente ligadas à personalidade, portanto se um não gosta da minha música preferida, então não gosta de mim. É simples assim, embora muita gente não entenda.

Portanto, vamos de listas! A primeira é sobre as 10 músicas principais do que se convencionou chamar de punk: barulho, atitude e coragem. No começo de tudo, os ingredientes do punk (quando ainda nem existia este nome) eram guitarras e tédio. Depois o tédio foi substituído pela revolta; depois, a guitarra foi substituída pela eletrônica, e o hedonismo entra em cena. Tudo a ver com o final do século 20, e o começo deste século 21.

Esta lista apresenta as 10 músicas que mais representam o punk, em suas diversas faces.

Ancestrais

MC5 - "Kick Out the Jams"


O punk começou no norte dos Estados Unidos: "kick out the jams, motherfucker!" Era 1969 (que reaparecerá adiante), e uns cabeludos malucos de Detroit (então chamada de Motor City, daí o MC do nome da banda) cantavam sobre groupies, enquanto outros tipos de cabeludos malucos pregavam paz e amor. Enquanto os hippies tentavam levitar a Casa Branca, em um protesto contra a Guerra do Vietnã, Wayne Kramer e asseclas faziam o maior barulho possível em porões enfumaçados. Nada de Era de Aquário, California Dreamin' ou Woodstock: em Detroit, só há cinza, concreto e fumaça, de carros e das fábricas que os produzem. O único jeito então é escapar pelo sexo, drogas e rock'n'roll (embora, aparentemente, a expressão só seria registrada em música por Ian Dury, lá por 1976). O futuro do pop em seu nascedouro: depois viriam Sex Pistols, Joy Division e My Bloody Valentine, declarando que o barulho é a definitiva expressão do tédio. Porém, antes de todos eles, tinha os...



The Stooges - "I Wanna Be Your Dog"

Quanto tempo eu fiquei para me decidir entre esta e "1969"... e agora, ainda não sei se escolhi a música certa. De qualquer forma, "I Wanna Be Your Dog" é crua e pop, violenta e doce ("So messed up I want you here" são os primeiros versos), o suprassumo do tédio (tanto quanto "1969"). São basicamente três acordes (G, F#, E) e uma nota exaustivamente repetida no piano (cortesia de John Cale, que produziu o disco de estréia onde tem esta música) ocupando pouca coisa mais que 3 minutos. A música é totalmente absoluta: basicamente todo mundo importante no pop fez sua cover. Aqui, o tédio, a carência, a apatia ganha distorção e peso, com uma batida cavalar - a melhor linha de bateria do punk, mesmo que Iggy Pop nem imaginasse que sua banda poderia ser classificada assim. Hoje ele sabe, mas não sei se aprova...



A Santíssima Trindade


The Clash - "London Calling"

É a sensação de urgência que torna esta música um clássico: nos pouco mais de 3 minutos da música, parece que o Tâmisa irá alagar Londres e que nada mais terá salvação. É a tensão que permeia a música, fornecida pelos vocais de Strummer, o baixo angustiante (e com forte influência de reggae) de Simonon e a bateria incessante de Headon. Talvez a melhor música punk de todos os tempos, ainda que não seja tão punk assim. "London Calling" e "Transmission", do Joy Division, capturaram melhor que nenhuma outra música a atmosfera do final dos anos 70 no Reino Unido - ambas foram lançadas em 1979.



Sex Pistols - "Pretty Vacant"

Para quê trabalhar? As férias são tão bacanas... ainda mais se forem indefinidas.Ah, somos tão inúteis... o hedonismo em sua forma mais radical. E também diversão radical: Rotten (ou Lydon) pronuncia "vacant" de forma a deixar implícita a palavra "cunt". Lançada no auge da crise econômica que levaria Margaret Thatcher ao governo, "Pretty Vacant" é o anúncio de que a juventude havia cansado: não haveria mais maio de 1968, e sim quebras-quebras como os de 2011, apenas para conseguir mercadorias e dar vazão ao tédio. A música é de 1977, e ainda ninguém levou o aviso a sério...



Dead Kennedys - "Holiday in Cambodia"

O começo parece música de filme de super-herói dos anos 60, mas depois que entra a voz de Jello Biafra, dá para entender: enquanto a juventude no Ocidente pensa que por ter diploma e uma boa vida, basta protestar contra o sistema, no Oriente as coisas vão seguindo cada vez piores, como a ditadura totalitária imposta por Pol Pot ao Cambodia (Pol Pot estudou na França, nos anos 50).
O vocal de Jello Biafra reflete a ironia da letra de forma que chega a ser divertido. Composta durante a brutal ditadura do Khmer Vermelho no Cambodia, a música não foi adotada pelos surfistas (como "California Über Alles" foi nos anos 80; que agora ouçam coisas como Jack Johnson é de dar risada) e meio que passou batida por aqui ("que diabos é Cambodia????"). O Dead Kennedys não tinham o visual punk que marcou o Clash e o Sex Pistols. Porém, na média, seu disco estréia é melhor do que os de seus congêneres ingleses. E as letras, melhores também.



Correndo por fora:

The Scars - "Horrorshow"


Era uma música completamente esquecida até que Lemon Jelly a usou para criar "The Shouty Track", e o The Scars teve mais fama de quando eram jovens. A letra cita "Laranja Mecânica", mas nem é o vocal ou a guitarra que chamam a atenção: é o baixo. Nunca uma música punk teve uma linha de baixo tão decente quanto "Horrorshow". É o baixo quem conduz a música, já que a guitarra preocupa-se em apenas organizar harmonicamente o barulho e a distorção. Brilhante - pena que as demais músicas da banda nem cheguem perto de "Horrorshow".



Não é punk, mas é como se fosse:

The Jam - "That's Entertainment"


O arranjo é mínimo: um violão, um baixo e um pandeiro. O resultado é absurdo: uma descrição perfeita de uma vida classe média no Reino Unido do final dos anos 70. Esta música poderia ser o hino deste blog: o barulho é entretenimento, diz a letra. Paul Weller é capaz de escrever versos como "Two lovers kissing amongst the scream of midnight/Two lovers missing the tranquillity of solitude". André Malraux escreveu que as 6 horas da manhã é o horário dos pequenos destinos; Weller responde: "Waking up at 6 a.m. on a cool warm morning / Opening the windows and breathing in petrol". É a vida na cidade: barulho, poluição, pequenos destinos. Embora a música esteja longe de representar o estilo do The Jam, é sua criação mais perfeita.




Mantendo o espírito punk:

M.A.R.R.S. - "Pump Up the Volume"


Vamos partir de um fato e de um delírio: o fato é que o punk é, basicamente, o conceito do Faça Você Mesmo, um tapa na cara dos esnobes progressivos que infestavam a música nos anos 70, a força conservadora que hoje se mostra com toda força no heavy metal virtuoso. O delírio: e se tudo tiver um fim, inclusive a criatividade? E se tudo já foi realmente feito, como um monte de gente afirma? O fato e o delírio se encontram no M.A.R.R.S., o primeiro projeto musical a usar um treco chamado sampler, para construir uma das primeiras músicas inteiramente feita de músicas dos outros. Isso foi a reconstrução do pop nos anos 80, como a dupla Sex Pistols / The Clash foi a reconstrução do pop nos anos 70. A diferença é que o M.A.R.R.S. se apropriou de músicas dos outros para compor coisas inteiramente novas. No processo, entra rap e música árabe. Como resultado, M.A.R.R.S. foi um dos primeiros grupos a enfrentar ações judiciais por infração de copyrights (os conservadores nunca dormem). Não é punk na forma nem no estilo, mas na concepção e na ousadia. Clássico.



The KLF - "3am Eternal"

O punk como o conhecíamos foi morto pelo M.A.R.R.S; quem definitivamente o enterrou foi o KLF. Dois malucos que, dentre outros feitos, queimaram 1 milhão de libras (alegadamente, dinheiro dos royalties de seus 3 singles lançados em 1991, "3am Eternal" entre eles, que foram os mais vendidos naquele ano), foram processados pelo ABBA e escreveram um livro ensinando como ser popstar sem saber sequer tocar um instrumento ("se tiver um, jogue-o fora", lia-se no livro). Bill Drummond (um dos meus ídolos) e Jimmy Cauty saíram da música pop com uma festa no Brit Awards, onde convidaram o Extreme Noise Terror para uma versão de "3am Eternal" entrando no palco com metralhadoras de grampos de papel. Na porta do after-party, colocaram um carneiro morto, anunciando sua retirada do showbiz e apagando suas músicas do catálogo, além de proibir qualquer execução pública de suas músicas. Punk ou o que?

P.S.: Drummond morreu no final de 2010, e ganhou apenas algumas notinhas de jornal.



O futuro

Qualquer um que saiba usar computador - "Qualquer mashup"


O máximo do Faça Você Mesmo, a dissolução definitiva da barreira entre produtor e consumidor: o mashup. Pegue quantas músicas puder e: (a) faça outra ou (b) melhore a que você já gosta. O pop achou seu futuro, e ele não pertence a nenhum músico, a nenhuma gravadora - e sim, à tecnologia. Agora, é possível juntar Michael Jackson e Gorillaz, Bob Marley e Iron Maiden, Bee Gees e Pink Floyd. Como as músicas pop têm praticamente o mesmo tom, o mesmo tempo e a mesma duração, a criatividade pode ir a qualquer lugar com os baratíssimos e cada vez mais fáceis de usar softwares de edição de música. É como se uma pessoa comum, como eu ou você, levasse a máxima da arquitetura modernista ("menos é mais") ao limite. E, no processo, deixando claro que leis como as de copyrights são coisas do século passado. Com o mashup, a gente até esquece, por três minutos, de como o mundo é um lugar chato pra cacete.

Ramones vs. Jet: "Are You Gonna Be My Blizkrieg Girl" - DJ Faroff



P.S.: Sim, esta é a única aparição de Ramones nesta lista. Além de musicalmente fraquíssimos, não eram punks - você sabia que o Joey Ramone...

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