"Bumerangue" é o novo livro de Michael Lewis - uma espécie de Sydney Sheldon da literatura econômica, em que a minúcia do estilo jornalístico se mistura com a velocidade do romance para relatar um "causo" das finanças. Lewis, porém, não é jornalista. Ele trabalhou no mercado financeiro por alguns anos e, rico, saiu para relatar sua experiência. O sucesso de vendas o inspirou a continuar escrevendo, até que a atual crise econômica lhe trouxe muitos temas para tratar.
A crise que começou em 2008 não só serviu como tema para Lewis, mas para muita gente. E haja assunto! Lewis, porém, reina soberano. Dois de seus livros migraram para o cinema, e a vendagem de seus livros continua alta. "Bumerangue", por exemplo, tinha até cartaz na Livraria Cultura - tratamento digno de autor best-seller.
Desta vez, Lewis migra da crise do sub-prime nos Estados Unidos para a crise do euro. O método, porém, continua o mesmo: falar sobre o esquisito, o absurdo, o nada habitual. Como o personagem de Ricardo Darín em "Um Conto Chinês", Lewis deixa os Estados Unidos e vai para a Europa, onde entrevista personagens de casos inacreditáveis, como o escândalo político que um monastério criou com especulação imobiliária na Grécia, um investidor que aposta no desastre europeu porque estudou tudo sobre a Islândia - e sua atração pelo país começou jogando War...
Porém, diferentemente de "The Quants", de Scott Patterson, que fala sobre os nerds matemáticos que, com suas equações operando em softwares, criaram investimentos surreais, "Bumerangue" submerge na psicologia destes personagens. O ponto alto do livro é quando Lewis vai à Frankfurt entrevistar o vice-presidente do Bundesbank. Na crise de 2008, todos os bancos do mundo se livravam de um investimento conhecido como CDO, que já tinha se mostrando uma fonte de prejuízos imensa. E quem comprava estes títulos? Os bancos alemães.
Para Lewis, os alemães têm uma relação conflituosa com a merda. O termo aparece em várias expressões carinhosas alemãs, inúmeros ditados populares... e ainda que os alemães fizessem merda comprando os CDOs tóxicos do mundo, a economia alemã permanece sólida como uma rocha. Ao explorar a crise econômica por este ângulo, Lewis se aproxima de "A Ética Protestante e o 'Espírito' Capitalista", de Max Weber. Porém, o alemão é um clássico, enquanto Lewis ainda é pouco mais do que um escritor de aeroporto.
É justamente isso que faz "Bumerangue" se destacar na multidão de livros sobre a crise: não estão lá apenas números e histórias de derrotas, mas a psicologia dos personagens envolvidos, vistos por um ângulo inusitado. Porém, vale um alerta: para entender não esta crise, mas todas, a leitura recomendada é "Lords of Finance", de Liaquat Ahamed, sobre a atuação dos quatro principais bancos centrais do mundo durante a Grande Depressão. Juntamente com "O Crash de 1929", de Galbraith, o leitor tem uma dimensão exata dos elementos que causam grandes crises, e pode se aprofundar na cobertura jornalística sobre a crise de 2008 com maior embasamento. Para os mais técnicos, o livro de Nouriel Roubini com Stephen Mihm, "A Economia das Crises", é o ideal.
E, para quem quer ler alguma coisa sobre o tema indo ou voltando do trabalho, "Bumerangue" é a pedida certa.
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