Não é lá uma grande história: um homem, com um pé no submundo, se envolve com uma garota casada com um sujeito que está na prisão. O sujeito é libertado, mas deve pagar uma dívida; com a ajuda de seu novo amigo, tentam roubar uma loja de penhores, mas o cara é morto durante o assalto. Então nosso personagem tem de matar todos os que estão atrás do dinheiro do roubo, para salvar a vida da garota, agora uma viúva.
Se a história não é muito original (quem disse que todas as histórias já foram contadas?), a forma é inovadora. Primeiro filme do diretor dinamarquês Nicholas Winding Refn em Hollywood, "Drive" combina alguns truques de video-clip com uma fotografia como que plastificada (cortesia da captação digital de imagens... outro exemplo marcante é "Margin Call" que, ao contrário de "Drive", possui uma tonalidade de cor que parece ter sido filmado em preto e branco). O resultado é uma artificialidade proposital, como a velha dualidade que assombrou a geração anterior a minha: ferro versus plástico.
Foi um choque para meus pais ver que o painel do novo carro era de plástico. A sensação era de que não ia durar muito, de que foi feito de plástico justamente para quebrar logo e forçar uma nova venda, mas além disso, era o sinal de que o mundo havia mudado. Nada mais seria de longo prazo: não iríamos mais dar nomes aos automóveis, porque não iriam mais ficar muito tempo com a gente. Mudou a consistência, muda o relacionamento com as coisas; como as coisas fazem o mundo, logo o mundo também ficou descartável. Portanto, não adianta se envolver com o mundo; feito de coisas de curto prazo, o mundo seria inconstante demais para despertar algum sentimento de envolvimento. Quando nos apaixonássemos pelo mundo, ele já teria mudado, e teríamos de nos apaixonar de novo. Só que a paixão é sentimento de longo prazo... Não à toa, o visual do filme remete aos anos 80.
Igualmente, a fotografia impele o espectador a se manter distante do filme, porque Refn abusa da violência. Em "Drive", a câmera não vira o rosto; pelo contrário, adota a perspectiva de quem está cometendo a violência. Tudo aparece de frente, mas o sangue não jorra: escorre. Não há gritos, apenas o rosto deformado pela dor. Daí a fotografia "plastificada", como que estabelecendo uma proteção entre a violência na tela e o espectador.
"Drive" está previsto para entrar em exibição no dia 24 de fevereiro, sabe-se lá porque. A lógica da distribuição de filmes não é a mesma da do espectador, o que abre um espaço enorme para a pirataria prosperar.
Eu gostei desse filme.
ResponderExcluirEle é sobre carros, mas não tem uma perseguição.
Ele é sobre amor, mas não tem nenhuma cena romântica.
Ainda por cima, traz um Albert Brooks extremamente assustador.
Estou procurando "Bronson" do Winding Refn. Li muitas críticas legais para esse filme.
Ah!
Quase ia esquecendo...vida longa ao Barulho Ácido!
Bom retorno, camarada!