Manu Conceição disse: "É necessário o erro, o desvio, uma medida fora da linha. Para mulheres e para homens. A beleza padrão é algo de que todos gostam. Mas o melhor mesmo não é gostar, é se apaixonar, amar. E para isso acontecer tem que ter o quê a mais. Aquele algo que faça a diferença".
Se entendi bem o que a Manu Conceição disse, a diferença é a ousadia: ir lá e fazer porque se quis. O "quê a mais" é sentir-se livre para ir lá e fazer, e pronto.
Mas quem tem a coragem? Vivemos em um tempo politicamente correto, que é a desculpa para a mediocridade, acomodação, o "porto seguro". Nobody moves and nobody gets hurt, já se diz há tempos.
Daí que todas as decisões são pautadas pelo medo, que é o outro lado da ousadia. Ninguém quer transgredir: todos querem um emprego seguro e estável, relacionamentos onde se pode afogar as carências e diversões baratas e que não causem problemas depois. O prazer se torna proibido. A diversão é uma heresia.
Então fica assim: o trabalho é legal, o relacionamento dá futuro e a vidinha segue. E a gente finge que não é preciso se divertir, que a transgressão é coisa dos "alternativos" e que somos felizes assim.
E aí, quando ficarmos velhos e chegar a hora do balanço final (aquela pergunta: "e aí, essa vida valeu a pena?"), a gente tentará fingir, mais uma vez, que sim, valeu a pena ter andado nessa linha que nivela tudo e a todos por baixo, que torna tudo um tédio só, e que todas as nossas vontades, que surgiram pela vida e foram ignoradas, não eram mesmo possíveis; só o que realmente fizemos, mesmo que a contragosto (em nome de um futuro que sempre insiste em nunca chegar), era o que deveríamos fazer, por que assim esperaram de nós. Quem esperou isso de nós? Um emprego maçante, um relacionamento plano, uma vidinha lenta e... tediosa. E porque o futuro nunca chega? Porque não vivemos o presente.
A transgressão implica em aproveitar o momento que se revela agora. A ousadia é um estilo de vida. Como diz o Miguel Esteves Cardoso, em um texto que reproduzi aqui há pouco tempo, temos de deixar de pensar em carreira, consumo, cultura e família; não se pode vender o hoje para comprar o amanhã.
A revolução que nossos tempos tanto espera pode estar em, justamente, não se importar com o amanhã, viver apenas o hoje: transgredindo o que nos é imposto, dando de ombros para o trabalho, para o consumo e para todas as outras rédeas. Seja no amor, como propõe a Manu, seja para vida toda. E deixar que o erro não seja um castigo, mas uma lição: não a de que transgredir não valha a pena, mas sobre como transgredir mais - e melhor.
Mas que coisa! Devo dizer que é uma honra ser citada em seu blog! E sim, concordo com suas palavras. A transgressão é o detalhe que faz toda a diferença. Trata-se de respeito por si próprio, mesmo que essa transgressão nada tenha de especial para ninguém, apenas para si mesmo. Bjos, e parabéns pelo texto que, longe e perto de transgredir, é sempre maravilhoso!
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