A história nem é tão obscura: trata-se da tentativa do crime organizado norte-americano de criar uma Las Vegas em grande escala em Cuba, nos anos anteriores à Revolução Cubana. A história já foi filmada por Coppola em "O Poderoso Chefão II", por exemplo.
No entanto, o mérito de English é contextualizar a operação em um quadro bem mais amplo. Por exemplo: pelo livro entendemos a participação de Fulgêncio Batista, o presidente derrubado por Fidel, no caso. Batista foi muito mais do que um presidente corrupto; ele mesmo participava do plano de transformar a ilha em um paraíso para viciados de todos os tipos.
A ideia era transformar Cuba no paraíso tropical da perdição: cassinos, prostíbulos, drogas... tudo o que implicasse em vício, e rendesse muito dinheiro à máfia, estaria à disposição do mundo. Para isso, era preciso mais do que corromper a alta cúpula do governo; era preciso fazê-los parte do processo.
O livro ainda deixa uma pergunta interessante no ar: Fidel Castro recebeu dinheiro da máfia? Quando ficou claro que o regime de Batista era insustentável e que os revolucionários entrariam em Havana a qualquer momento, vários mafiosos tentaram colocar Fidel e seu grupo sob sua influência.
A ideia era: a economia cubana já estava extremamente dependente dos cassinos e da construção civil financiada pela máfia. Os hotéis cresciam como mato no Malecón de Havana; empregavam milhares de pessoas durante e depois de sua construção. O que os comunistas fariam com o setor? Fechar tudo era um suicídio econômico; manter a situação era manter a corrupção. O que Fidel faria após tomar o poder?
Para a máfia, estava claro que ele não poderia fechar os cassinos, que além de tudo, eram uma grande fonte de dólares. Para Fidel, era óbvio que os cassinos eram a fonte da corrupção e da exploração social que ele estava determinado a derrubar.
O contato entre as duas partes foi tímido. A máfia tentou enviar dinheiro e armas para Fidel, quando entendeu que o regime de Batista já era; o livro não deixa claro se os recursos foram usados pelos combatentes. O que a história mostra é que Fidel não fechou os cassinos de imediato; ele nomeou um acólito da Máfia para supervisionar o setor (que, depois do fechamento dos cassinos, tentou matá-lo).
No entanto, nem tudo são flores. A edição brasileira é inacreditavelmente mal-cuidada; não houve revisão gramatical, por exemplo. A tradução, do escritor pop Santiago Nazarian, é péssima; além de não saber a gramática portuguesa (é "reacender" e não "reascender", Santiago!), ele desconhece expressões idiomáticas básicas do inglês.
Se puder ler a versão original, faça isso; caso contrário, espere uma reedição, porque é improvável que a Cultrix (dona do selo Seoman, que publicou o livro) mantenha uma versão de tão baixa qualidade nas livrarias.
Vai aí um trailer do filme "O Poderoso Chefão II", para dar uma idéia da história sob a visão de Francis Ford Coppola:
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