sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

a poesia de manoel de barros

Por quê há má poesia, má música, maus livros? Por quê há má filosofia e má ciência? Oras, porque o pensamento que prevalece neste mundo ocidental apresenta falhas. E estas falhas estão justamente na base que funda este pensamento: o sistema de interpretação do mundo.

O modo como interpretamos os eventos da natureza é a origem do nosso sistema de pensamento. Tudo na começou na Grécia, com a constatação das alternâncias que a natureza proporciona: noite e dia, chuva e sol, frio e calor... Esta idéia de que tudo tem apenas dois lados diferentes permeia todo o nosso pensamento, há mais de 25 séculos.

Este sistema, baseado nas diferenças entre os estados da matéria, nos deu, entre outras coisas, o código binário, que me permite escrever neste blog, e - mais importante, porque está intimamente ligado às perguntas acima - o sistema de adjetivos, que é o mesmo para todos os idiomas ocidentais. Este sistema de adjetivos reflete a alternância da natureza: bonito/feio, bom/ruim, bondade/maldade...

O problema, porém, é o meio termo. Este sistema de raciocínio não nos permite compreender aquele estado que não é absoluto. Por exemplo: um copo com água pela metade - está ele semi-vazio ou semi-cheio? Veja que, independentemente da resposta, a simples possibilidade de que as duas condições sejam válidas já é uma contradição com todo o sistema, que postula apenas uma condição para cada estado da matéria.

André Comte-Sponville, em seu "Pequeno Tratado das Grandes Virtudes", imagina um oficial nazista, extremamente cruel em seu trabalho no campo de concentração de Auschwitz, que ao chegar em casa é um pai exemplar e um ótimo vizinho, envolvido nos assuntos de sua comunidade e estimado por todos. Este nazista é um bom homem, um mau homem - ou ambos?

A situação não melhora quando passamos a raciocinar pelo caminho oposto - o das semelhanças. A idéia é de Platão: ele afirma, em "A República", que todas as coisas do mundo têm uma forma básica, de onde saem tudo o que habita o mundo. Ele dá o exemplo do cavalo: embora os cavalos tenham diferentes cores, tamanhos e pelagem, todos eles têm elementos em comum que permitem se dar um nome só para aquele animal. Estes elementos em comum são a fôrma de onde saem os cavalos.

Esta é a base do nosso sistema linguístico, como estabelece Ferdinand Saussure e sua idéia de que um signo (uma palavra) consiste em um "conceito" - seu significado - e uma "imagem sonora" - o significante. Podemos pensar que o "conceito" equivale à fôrma de Platão, já que, independente do idioma, a conceito de uma cadeira é o mesmo em todos os povos; e a "imagem sonora" seria as palavras que descendem este "conceito" que lhes dá forma, múltiplas em termos de idioma, mas únicas por nascerem da mesma fonte.

O problema, aqui, é que este sistema não é profundo o suficiente para entender o meio termo. Fritjof Capra explica como a linguagem é insuficiente para descrever (e nos fazer entender) os problemas da física quântica; e todo o seu "Tao da Física" pretende convencer que nosso pensamento, criado pelos gregos e aperfeiçoado por Descartes, é incapaz de apreender as características do mundo sub-atômico - justamente a parte da natureza que não podemos observar.

E essa é exatamente a questão: nosso sistema de raciocínio funda-se totalmente em apenas um dos cinco sentidos - a visão. O que não podemos observar, não temos como explicar; e, por causa desta deficiência, não conseguimos compreender os fenômenos naturais que ocorrem dentro de nós: os sentimentos.

Diz a lenda que a palavra "saudade" existe apenas em português (há um termo semelhante em galego: "morriña"). Há vários termos em outros idiomas que captam, porém, apenas um aspecto dentre os vários que a palavra "saudade" possui. No entanto, é possível para alguém explicar a um forasteiro o que é "saudade"? Em 2004, uma empresa de traduções britânica classificou o termo como o sétimo mais difícil de traduzir dentre todas as palavras.

Joelmir Betting uma vez disse: "É praticamente impossível definir o que é ser palmeirense para quem não é, e completamente desnecessário explicar para quem é". Esta é a encruzilhada em que está a palavra "saudade": ela não pode ser apreendida pela razão, é preciso senti-la. Porque quando sentimos, compreendemos o que é saudade em toda a sua extensão; mas aí, não nos é possível exprimir o que sentimos em palavras, em idéias, em conceitos. Ou seja: a palavra "saudade" não descende de um "conceito", de uma "fôrma". É um termo à deriva da razão, pois está ancorada firmemente naquela parte de nós em que o "coração" governa.

A questão é a mesma em relação a outro sentimento praticamente impossível de se apreender pela razão: o tédio. Lars Svendsen, em "Filosofia do Tédio", afirma que o tédio é uma "morte em existência". Svendsen tenta mostrar, aqui, que não é tanto a palavra que nos dará a mensagem, que nos fará compreender o que é o tédio, mas sim a imagem que a concatenação daquelas palavras constrói na nossa imaginação. Ou seja, nem é a imagem sonora ou o conceito que importam, aqui, mas a imagem mental, aquela que formamos dentro de nós e aciona os sentimentos e não a razão, e que nos dará a mensagem pretendida pelo autor.

Há uma subversão implícita na idéia de imagem mental, em relação ao domínio da razão sobre o pensamento ocidental, porque ela abandona por completo todo o sistema que fundamenta o modo como pensamos e, por conseguinte, agimos. Em outras palavras (e idéias), a lógica já não é mais necessária e, sem ela, também se torna inútil a padronização do pensamento: as idéias não precisam ser mais as mesmas para todos. Cada indivíduo pode ter a sua imagem mental.

E o passaporte para isso é a poesia. É interessante notar como a poesia contemporânea se libertou da prisão da forma e do conteúdo para se dedicar totalmente à criação de imagens mentais.

A poesia moderna começa com Dante Alighieri. "A Divina Comédia" indica o caminho para a poesia que virá: o ritmo das palavras se sobrepõe à criação de imagens e o estilo é soberano. Dante escreveu seu épico em 100 cantos, divididos em 3 cânticos, em um esquema de versos chamado terza rima, utilizado pela primeira vez justamente por Dante: stanzas de três versos no padrão aba, bcb, cdc e assim por diante. Cada verso tem 11 sílabas. Alguns críticos afirmam que a preponderância do número 3 no épico (3 cânticos, 3 versos e assim por diante) tem conotação religiosa, simbolizando a Santíssima Trindade.

Com o poema, Dante cristalizou o dialeto toscanês como o idioma nacional da Itália e influenciou vários outros poetas, como Byron, Shelley, Chaucer (todos ingleses, apesar do idioma de Shakespeare dificultar a composição nesta forma) e John Milton.

"Paraíso Perdido" foi escrito quando Milton estava cego - ele ditou a obra para a sua esposa. Milton não utilizou a terza rima neste poema - ele preferiu versos brancos, que mantêm a métrica, mas dispensam a rima. Sua obra foi tão influente para o desenvolvimento da poesia que seu uso dos versos brancos foi chamado de Miltônico, já que seu estilo foi obrigatório para aqueles que tentaram escrever épicos no idioma inglês nos séculos seguintes.

Tanto Alighieri quanto Milton subordinaram suas obras à razão, e usaram a lógica do pensamento ocidental, no formato de estilos, métricas (a simetria é, justamente, uma das forças que nasceram do pensamento ocidental a moldar a criação artística) e rimas. A criação de imagens mentais, nos dois casos, é fortíssima; no entanto, não era isso a preocupação inicial dos dois autores. O ritmo das palavras, que implica em uma lógica de encadeamento, era, talvez, a maior preocupação estilística de ambos, já que viviam em uma época em que a imprensa não existia (Dante) ou era de uso muito restrito (Milton) e, por isso, confiavam na propagação de suas obras pela via oral.

Há um vínculo entre a razão e a emoção na leitura destas obras que subordina a última à primeira - é preciso compreender a imagem mental proposta pelo poeta para poder senti-la. Na poesia contemporânea, a tentativa é justamente quebrar este vínculo e estabelecer uma relação direta entre as palavras que constroem a imagem mental e a compreensão direta pelos sentidos do leitor.

Esta é a proposta de Manuel de Barros. Em nenhum outro livro dele está mais clara sua proposta de destruir a conexão razão/emoção do que em "O Livro das Ignorãnças", onde ele define sua visão de poesia:

"No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras".

Ele propõe um delírio do verbo para criar novas realidades na mente de quem lê:

"No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos --
O verbo tem de pegar delírio."

Em Manoel de Barros, não há necessidade de lógica alguma. É como se ele afirmasse que a subordinação da emoção à razão fosse efetuada pela lógica e, portanto, suprimi-la equivale a anular a razão e falar diretamente à razão. Assim, a imagem mental proposta pelo poema é formada de súbito na mente do leitor, sem que se possa compreender o processo pelo qual ela foi formada. É muito mais uma questão de intuição do que de razão. É preciso, porém, preparar-se para a leitura de um poema de Manoel de Barros. É necessário aprender a "pensar sem lógica" para apreender e desfrutar a experiência de ler um poema em que a construção de imagens mentais é soberana em relação à forma e ao conteúdo.

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