
Da esquerda para a direita: Peter Saville, responsável pela imagem da Factory e a de seus artistas, Wilson e Alan Erasmus, sócio de Wilson e responsável pelas contas; atrás deles, o lugar alugado por Wilson e Erasmus para hospedar os shows das bandas de Manchester, que iria depois se transformar na gravadora.
Saville era o encarregado de fazer o poster para promover o show de abertura do lugar. No entanto, como era de sua característica, ele entregou o poster na noite do evento (os discos do New Order atrasariam meses só porque Saville estava sempre atrasado). Wilson, no entanto, achou o poster maravilhoso e pagou Saville assim mesmo.
O dia 18 de maio é importante para a música pop: é o aniversário da morte de Ian Curtis, vocalista do Joy Division. No entanto, a história de Ian, de sua banda, de Manchester e de uma boa parte do indie pop seria totalmente diferente se não fosse por Tony Wilson.
Apresentador da TV Granada, Wilson era um dos poucos que estava no Manchester Free Trade Hall naquele 16 de junho de 1976, para ver o show do Sex Pistols. A maioria dos poucos presentes naquele show saiu de lá para montar uma banda (Bernard Albrecht, mais tarde Sumner, e Peter Hook, por exemplo); já Wilson resolveu montar uma gravadora.
Era a Factory. Já havia gravadoras independentes antes disso, como a grande Rough Trade; no entanto, foi a Factory que adicionou poesia à coisa e, com isso, inspirou muita gente a fazer o mesmo. A Factory não operava como uma empresa normal; não havia contratos com os artistas. Ao mesmo tempo, a verba para marketing dos discos era praticamente nula. Toda a força, humana e financeira, era gasta na música em si.
Todos gravavam nos melhores estúdios de Manchester; e as capas eram, por si só, obras de arte. Isso porque Wilson andava com Martin Hannett, produtor extraordinaire que inventou um padrão de produção depois largamente copiado; e com Peter Saville, cujas capas de discos são expostas em museus.
A Factory operava sem prazo e sem orçamento: não fez dinheiro, mas fez história (quem disse isso foi Wilson, que também sabia fazer ótimas frases). No entanto, isso não impediu Wilson e trupe de abrir o Haçienda (primeiro lugar onde Madonna se apresentou e primeiro lugar onde o DJ ganhou o direito de comandar as noites) e o Dry - ambas instituições mancunianas que, sinal dos tempos em que vivemos, já fecharam.
Além do Joy Division, a Factory lançou Happy Mondays e uma miríade de outras bandas da cidade; Wilson achava que era seu dever promover Manchester como pólo de irradiação cultural. Como resultado, na virada dos anos 80 para os 90, o lugar virou a meca do pop mundial: era a onda "Madchester".
No entanto, a Factory não foi só isso. Lançou também bandas com quase nenhum potencial comercial, mas de ótima qualidade (Wilson protegia Vini Reilly, do Durutti Column; uma vez, para consolá-lo sobre o escasso público de um show de Reilly no Haçienda, ele disse: "Os grandes momentos da história são testemunhados por poucos visionários. Quantas pessoas estavam na Última Ceia?").
No auge da Madchester, Wilson resolveu dar à cidade um monumento arquitetônico, e gastou tudo o que não tinha na construção de uma nova sede para a Factory. Ele confiava que suas principais bandas, New Order e Happy Mondays, lançassem novos discos e com isso, provessem os fundos necessários para pagar o luxo do novo prédio. O New Order lançou "Technique", em 89; o Happy Mondays foi para Barbados, com a intenção de se manter longe das drogas. No entanto, a ilha caribenha estava cheia de crack (Shaun Ryder, vocalista da banda, quebrou o braço duas vezes de tão chapado que estava). O disco dos Mondays, "Yes Please", era tão ruim que foi um grande fracasso de vendas. A Factory quebrou.
No entanto, Wilson não tinha os direitos sobre os discos que lançou - estes eram das próprias bandas ("A Factory não tem nada; os artistas têm o direito de fuder com tudo", estava escrito nos contratos que Wilson assinava com suas bandas - a sangue). Assim, Wilson ficou com as dívidas enquanto suas bandas negociavam seus catálogos com outras gravadoras. Ele diria, ao se ver totalmente quebrado: "Capitalismo sem falência é como Cristianismo sem inferno".
Wilson tentou reformar a Factory várias vezes, sem sucesso; até que um câncer lhe matou. Ele não podia pagar seu tratamento, estimado em £3.500 ao mês ("Costumei dizer que alguns ganham dinheiro e outros fazem história, e isso é muito engraçado até que alguém se vê sem condições financeiras de manter a própria vida").
Ele faleceu em 10 de agosto de 2007. Como em tudo na Factory, seu caixão também foi catalogado - recebeu o número FAC 501 ("Closer", o melhor disco lançado pela gravadora, era FAC 25; "Unknown Pleasures", primeiro disco do Joy Division, FAC 10; o Haçienda era FAC 251).
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