Não se pode ler o clássico de John Steinbeck, "Vinhas da Ira", apenas como um relato pungente das agruras sofridas durante a Grande Depressão ou como uma parábola religiosa sobre a solidariedade. O livro é tudo isso e ainda mais: um panfleto contra o capitalismo e, principalmente, uma profunda análise sobre a condição humana.
Steinbeck é incisivo quando trata de mostrar as diferenças entre os esfomeados migrantes e os bem-estabelecidos donos das terras. Os primeiros lutam pela sobrevivência; os outros, são apenas ambiciosos. Esta diferença dá o tom do livro: a solidariedade que o grupo abastado nega é abundante dentre os que nada têm.
É esta diferença que cria a identidade de cada grupo. Steinbeck narra com precisão os truques que os fazendeiros empregam para abaixar os salários: sujeitos à lei da oferta e demanda, quanto mais migrantes, ou seja, mão de obra em abundância, menores ficam os salários. Se, por outro lado, a lei pende em favor dos trabalhadores, então o governo toma medidas para que a inflação não suba.
Steinbeck mostra, sem pudores, como o aparelho estatal ajuda os fazendeiros a manter a ordem, em um ambiente favorável à rebelião. A propaganda ideológica, então, entra a todo o vapor: quem pede salários mais altos é classificado como "vermelho". E, a todo momento, as políticas sociais do New Deal são criticadas pelos bem-estabelecidos, igual às críticas que o Bolsa Família recebe por aqui.
No entanto, o livro todo parece ser construído em torno de uma personagem só. Ela é a única de quem não sabemos o nome; é a única que não se transforma durante o desenrolar da história e, ao mesmo tempo, é a única que transforma a todos. Ela é a matriarca da família Joad, que sai de Oklahoma, expulsa de suas terras por causa de dívidas, e que vai à Califórnia tentar a vida.
O livro pode ser dividido em três partes: a chegada de Tom, o filho que estava na cadeia, à casa da família Joad; o trajeto até a Califórnia e, por fim, a luta pela sobrevivência no Oeste. Os capítulos alternam-se entre o relato puro das aventuras da família e relatos um tanto abstratos da conjuntura social em que os Joad estão adentrando, muitas vezes sem o saber.
Em todas as três, é a matriarca da família quem serve de suporte para que a família resista. Tal e qual a heroína de "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago, ela vê a degradação humana, seja pelos lucros, seja pela fome, e não se altera: suas convicções a respeito da necessidade da solidariedade, da união familiar, do trabalho duro, continuam as mesmas. E, assim, ela gradualmente toma o lugar do marido como líder da família. Isso é o que precisa ser feito para que a sua família também não sucumba ante a miséria total da sociedade.
Porém, também ela sabe que esta é uma luta condenada à derrota. Suas ações de solidariedade lhe causam problemas com as outras famílias necessitadas; um a um, seus filhos vão se separando da família; e o trabalho duro não se traduz em melhores condições de vida. Mas ela não cede um milímetro; sabe que a vitória está dentro dela, na paz interior de quem sabe que fez como tinha de ser feito, e que isso basta.
Na única descrição que Steinbeck faz dela em todo o romance, ele escreve: "Os olhos cor-de-avelã sugeriam os muitos dramas que devem ter presenciado e pareciam ter atingido a dor e o sofrimento, escalando, degrau após degrau, até alcançarem uma serenidade e uma compreensão pós-humanas". Steinbeck deixa claro que apenas pela dor e pelo sofrimento se pode atingir uma condição superior, e se tornar uma pessoa de convicções. Aquele que evita a dor e o sofrimento é um fraco.
É neste contexto que deve ser entendida a cena que encerra o livro. Quando a natureza se alia aos exploradores e tira tudo o que a família Joad tem, inclusive a sua terceira geração, ela então convence a filha a amamentar um velho que está prestes a morrer de fome. Ela o faz porque o velho deixou de comer para alimentar seu filho. De quebra, a cena ainda mostra a conversão da filha, antes uma egoísta e que, depois de abandonada pelo marido e de perder seu filho, consente em colocar o seio na boca do moribundo.
A solidariedade do velho em cuidar da sua família, mesmo que à custa de si mesmo, é recompensada pelo ato extremo de doação. No entanto, para poder realizar este ato, é preciso sofrer - e muito.
Steibeck nos lembra, portanto, que a dor e o sofrimento são elementos indispensáveis para a salvação do homem - não em um sentido bíblico, mas terreno, pragmático, sem ideologia ou fé. A maioria das pessoas usa a dor e o sofrimento como justificativa para seu egoísmo, e com isso infligem ainda mais dor e sofrimento ao mundo. A matriarca da família Joad, a mulher sem nome, ao contrário, torna-se a única esperança de quem também tem dor e sofre. É preciso, portanto, mergulhar na dor e viver o sofrimento para se alcançar uma condição superior.
(publicado originalmente em ideias de mesa)
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