Roberto Piva, João Antônio: um poeta, outro contista. Em comum, o ano e a temática – a baixa São Paulo e seus personagens malditos. Foi em 1963 que os poemas de Piva, compilados em “Paranóia”, e os contos de João Antônio, reunidos em “Malagueta, Perus e Bacanaço”, ganharam as livrarias.
É bem verdade que, se a temática é a mesma, os olhares foram opostos. Piva, em suas andanças embebidas de narcóticos pelo centro de São Paulo, recuperou os poetas malditos – Lautréamont, Rimbaud, Baudelaire; João Antônio, talvez sem saber, retoma o fio da meada deixado por Alcântara Machado e Oswald de Andrade.
Provavelmente Roberto Piva, se tivesse circulado pela então periferia da cidade – Pompeia, Perdizes, Vila Leopoldina – teria encontrado morada nos contos de João Antônio; mas nunca o contrário. Primeiro, porque João Antônio estava na periferia: seus contos podem ser considerados perfeitos retratos da vida levada pela malandragem de sua época. Enquanto Piva flanava entorpecido pela cidade, João Antônio tinha seus olhos bem abertos.
Isso não quer dizer que o contista leva vantagem sobre o poeta. Embora ambos retratassem os anjos caídos na noite paulistana, João Antônio buscava captar aquele estilo de vida malandro em palavras e procedimentos; Piva queria apreender a sensação.
Daí os olhares opostos: Piva fantasia, poeta que é; suas construções são longas, cheias de adjetivos e imagens fortes. Já João Antônio escreve em frases curtas e secas cheias de realidade, com os trejeitos da malandragem. Se há imagens, elas são doloridas. Em Piva, o submundo é homossexual, drogado, etéreo; já para João Antônio, a vida se resume a uma dura mesa de sinuca, onde os malandros jogam sua sobrevivência. Para Piva, a necessidade é estética: deve se obter toda a sensação que é negada pela realidade diurna durante a noite, por meio de drogas, álcool e sexo, mesmo sabendo que são sensações fugazes. Nos contos de João Antônio, a necessidade é manifesta unicamente pela fome (que também não deixa de ser uma sensação fugidia).
Talvez a história pessoal de cada um ajude a entender. Piva é filho de fazendeiro; se formou em duas faculdades (uma delas, Sociologia) e se sustentou lecionando. João Antônio, por sua vez, veio da Lapa de baixo; seu pai era dono de um boteco, e a família morava no andar de cima. Uma noite, tudo pegou fogo; João Antônio perdeu os originais de “Malagueta, Perus e Bacanaço” e a máquina de escrever que comprara a duras penas.
Diferenças a parte, os dois livros dão um panorama fiel da realidade cultural brasileira às vésperas da revolução de 64. Foi em 31 de março de 1964 que a inovação e a transgressão foram arrancadas pelas raízes para dar lugar à pobreza cultural que temos hoje. E, por causa disso, não há ninguém fazendo, hoje no Brasil, literatura como fizeram, há 46 anos, Roberto Piva e João Antônio.
quarta-feira, 7 de março de 2012
sábado, 3 de março de 2012
A realidade vira ficção... científica (medo)
Dois condados na Inglaterra, West Midlands e Surrey, abriram licitação pública para privatizar as suas forças policiais. Serão oferecidos à iniciativa privada (para usar o jargão destes novos tempos) serviços de ronda, podendo deter e interrogar suspeitos, inclusive investigar crimes. A lista de atribuições é enorme - compreendendo basicamente tudo o que pode ser transferido para uma empresa, dentro dos marcos legais.
Outros condados ingleses já privatizaram suas forças policiais. No entanto, além do tamanho destas duas privatizações (estes dois condados são os que detêm as maiores forças policiais no Reino Unido), chama também a atenção o valor potencial das duas operações somadas - £1,5 bilhão, no decorrer de sete anos. Dependendo das forças policiais envolvidas, a soma pode chegar a £3,5 bilhões.
É possível que manter forças policiais possa custar tanto dinheiro? Veja que as privatizações são decorrência da decisão da secretária de Interior, Theresa May, de cortar em 20% as verbas para segurança pública. Ou seja: as privatizações são vistas como um modo de manter o mesmo nível de qualidade de serviço, de modo mais barato. Vale lembrar que o corte no orçamento é uma resposta à crise da dívida na Europa.
Apesar de todas as palavras bonitas e contorcionismos intelectuais usados para justificar este tipo de operação, a verdade é que se trata de contratar uma empresa de vigilância para cuidar do patrimônio público, nada mais do que isso. A questão, aqui, é que o conceito de patrimônio inclui a vida dos cidadãos de um país, visto que toda constituição (e a do Reino Unido, embora não escrita, não é exceção) garante que cuidar da vida é um dever do Estado. Portanto, indo mais fundo, trata-se de colocar a vida do cidadão sob a tutela de uma empresa.
Empresas que, em geral, sempre irão colocar lucros e retornos para os seus acionistas como preocupação maior. Licitações deste tipo sempre têm um grau de incerteza muito alto, visto que pretendem precificar algo que é muito dinâmico e abstrato para ser definidos em valores numéricos. Quem pode garantir que, dentro de um determinado período, não será necessário aumentar o número de policiais em patrulha nestes condados? Quem poderá garantir que uma nova onda de ataques, como a onda de violência de 2011, não estoure outra vez? Se os custos subirem, o que impede estas empresas de reduzir os gastos , a fim de manter os lucros?
A questão é quem irá trabalhar para estas empresas. O plano de privatização afirma que os atuais policiais serão transferidos a estas companhias; mas a que salários? Se ganharem menos, terão menor motivação para trabalhar bem; se ganharem a mesma coisa, as empresas terão de cortar custos em algum outro lugar para manter a viabilidade econômica destas operações.
Disso, decorre outro problema: quem será responsável pelas operações das empresas, em caso de violação de direitos humanos? No Iraque, as operações da empresa Blackwater foram marcadas por massacres e constantes abusos de prisioneiros. A empresa de segurança, que fornecia serviços de vigilância e policiamento para os Estados Unidos nas cidades ocupadas, ganhou fortunas pelas missões, mas teve de mudar de nome para minimizar a repercussão negativa surgida de seus erros.
No caso da Blackwater, o cenário era de guerra; a situação britânica é de ordem civil. Porém, em ambos os cenários, o conceito é o mesmo: para otimizar recursos e impulsionar a economia, o Estado transfere a empresas campos de atuação até então exclusivos, passando para o papel de regulador. E isso vale até para serviços essenciais, os grandes motivos pelos quais pagamos impostos, inclusive a segurança pública.
O que era delírio de alguns autores de ficção científica está se tornando realidade. Se a vida copia a arte, que pelo menos fossem os filmes de Charles Chaplin...
Outros condados ingleses já privatizaram suas forças policiais. No entanto, além do tamanho destas duas privatizações (estes dois condados são os que detêm as maiores forças policiais no Reino Unido), chama também a atenção o valor potencial das duas operações somadas - £1,5 bilhão, no decorrer de sete anos. Dependendo das forças policiais envolvidas, a soma pode chegar a £3,5 bilhões.
É possível que manter forças policiais possa custar tanto dinheiro? Veja que as privatizações são decorrência da decisão da secretária de Interior, Theresa May, de cortar em 20% as verbas para segurança pública. Ou seja: as privatizações são vistas como um modo de manter o mesmo nível de qualidade de serviço, de modo mais barato. Vale lembrar que o corte no orçamento é uma resposta à crise da dívida na Europa.
Apesar de todas as palavras bonitas e contorcionismos intelectuais usados para justificar este tipo de operação, a verdade é que se trata de contratar uma empresa de vigilância para cuidar do patrimônio público, nada mais do que isso. A questão, aqui, é que o conceito de patrimônio inclui a vida dos cidadãos de um país, visto que toda constituição (e a do Reino Unido, embora não escrita, não é exceção) garante que cuidar da vida é um dever do Estado. Portanto, indo mais fundo, trata-se de colocar a vida do cidadão sob a tutela de uma empresa.
Empresas que, em geral, sempre irão colocar lucros e retornos para os seus acionistas como preocupação maior. Licitações deste tipo sempre têm um grau de incerteza muito alto, visto que pretendem precificar algo que é muito dinâmico e abstrato para ser definidos em valores numéricos. Quem pode garantir que, dentro de um determinado período, não será necessário aumentar o número de policiais em patrulha nestes condados? Quem poderá garantir que uma nova onda de ataques, como a onda de violência de 2011, não estoure outra vez? Se os custos subirem, o que impede estas empresas de reduzir os gastos , a fim de manter os lucros?
A questão é quem irá trabalhar para estas empresas. O plano de privatização afirma que os atuais policiais serão transferidos a estas companhias; mas a que salários? Se ganharem menos, terão menor motivação para trabalhar bem; se ganharem a mesma coisa, as empresas terão de cortar custos em algum outro lugar para manter a viabilidade econômica destas operações.
Disso, decorre outro problema: quem será responsável pelas operações das empresas, em caso de violação de direitos humanos? No Iraque, as operações da empresa Blackwater foram marcadas por massacres e constantes abusos de prisioneiros. A empresa de segurança, que fornecia serviços de vigilância e policiamento para os Estados Unidos nas cidades ocupadas, ganhou fortunas pelas missões, mas teve de mudar de nome para minimizar a repercussão negativa surgida de seus erros.
No caso da Blackwater, o cenário era de guerra; a situação britânica é de ordem civil. Porém, em ambos os cenários, o conceito é o mesmo: para otimizar recursos e impulsionar a economia, o Estado transfere a empresas campos de atuação até então exclusivos, passando para o papel de regulador. E isso vale até para serviços essenciais, os grandes motivos pelos quais pagamos impostos, inclusive a segurança pública.
O que era delírio de alguns autores de ficção científica está se tornando realidade. Se a vida copia a arte, que pelo menos fossem os filmes de Charles Chaplin...
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Sobre o ódio, e sobre democracia
E enquanto Bashir Assad aferra-se ao poder na Síria, reformando a Constituição para legitimar seu mando por mais 14 anos, no mínimo, vale a pena relembrar o que ocorreu com outros ditadores que relutaram em sair do poder - mas que, quando saíram, foi pelo pior modo possível.
Vejamos Muammar Gaddafi. O tratamento que ele recebeu ao ser descoberto pelas forças revolucionárias chocou o mundo. Morto em uma tubulação no meio do deserto, o ex-líder líbio foi enterrado em um lugar secreto, enquanto a população comemorava sua morte nas ruas. As fotos de seu cadáver circularam o mundo, a ponto de Barack Obama advertir, hoje, que “não devemos ter prazer com as imagens da morte de Gaddafi”.
É impossível não lembrar o destino de Nicolae Ceausescu, que governou a Romênia com mão de ferro por 25 anos, e de sua mulher, Elena, no natal de 1989. O casal foi condenado à morte em um julgamento que mais parecia ocorrer em uma sala escolar. Tanto o julgamento quanto a execução foram transmitidas ao vivo pela TV romena, fazendo com que a população saísse às ruas em comemoração.
Julgamento e execução de Nicolae Ceausescu
É a insanidade dos ditadores que causa um ódio tão extremo, a ponto de irromper em uma violência insana por parte da população libertada? Este é o paradoxo que parece assombrar as nações que acabam de recuperar sua liberdade: se a própria sociedade age como o ditador que acaba de derrubar, como esperar que a idéia de justiça prevaleça?
Este é um problema que mantém os filósofos ocupados desde há muito tempo. Para Aristóteles, a “justiça é a virtude completa”. No entanto, a justiça não faz a felicidade; é a felicidade quem depende dela. Sacrificar alguém em nome da humanidade não se trata, especificamente, de fazer justiça. Afinal, a justiça não é utilitária: ela deve ser um princípio moral, válida para todos e, no caso de ditadores, ainda mais – só a justiça pode evitar que outros ditadores apareçam no futuro. O problema é que a justiça só existe quando a fazemos.
No entanto, esta é uma visão racionalista. Quem dirá a um romeno, ou cambojano, ou dominicano, ou italiano, que ele deve suprimir suas emoções ao derrubar um ditador e enviá-lo a um julgamento justo, que o faça pagar pelos seus crimes com a perda de sua liberdade?
No Camboja, instalou-se um tribunal local para julgar os crimes cometidos pela liderança do Khmer Vermelho, de 1975 a 1979: cerca de 1,5 milhão de mortos, entre execuções, fome e trabalhos forçados. No período, as cidades foram esvaziadas e crianças foram armadas para vigiar os campos de trabalho forçado.
O líder do Khmer Vermelho, Pol Pot, morreu na noite em que sua extradição foi anunciada, em 1998. Há suspeitas de que tenha cometido suicídio ou que tenha sido envenenado. O número dois da organização, Nuon Chea, ou simplesmente “número dois”, está sendo julgado pelos tribunais cambojanos, com apoio da ONU. Ieng Sary, outro alto dirigente do Khmer Vermelho, anunciou hoje que não deporá contra o “número dois”. A população cambojana está alheia ao processo; o momento da catarse já passou. O sentimento de frustração gera a indiferença, que é como o país trata a questão.
Todos os réus, no caso do Camboja, têm mais de 80 anos. Se forem condenados, provavelmente sequer serão presos – mesmo porque muitos deles já estão em prisões domiciliares, com o apoio de seguidores e alguns familiares. A sensação, portanto, é a de que mesmo a justiça não cobra o devido preço pelos crimes cometidos.
Além disso, há a percepção de que cai o ditador, mas não o suporte que o mantém no poder – o que envolve, justamente, o sistema legal. Reformar o sistema legal para julgar um ditador pode dar a chance de movimentos contra-revolucionários, financiados por aqueles que se beneficiavam com o antigo regime, aparecerem e levarem a situação, em último caso, à guerra civil. Portanto, o caminho mais rápido para a revolução é matar o ditador.
Porém, não se trata de vingança, que fique claro: aqui, a racionalidade simplesmente não existe. Trata-se, apenas, de uma explosão de sentimentos que leva o oprimido a se tornar opressor, e transforma o opressor em oprimido – a razão simplesmente desaparece, para dar lugar a uma catarse coletiva de efeitos terríveis. Senão, o que dizer da cerimônia funeral de Benito Mussolini e de sua amante, Clara Petacci, pendurados de cabeça para baixo em um posto de gasolina não apenas para provar que estavam mortos, mas também para que a população lhe chutasse a cabeça?
Execução de Benito Mussolini:
Estas catarses parecem ser a manifestação histórica da perversa relação entre a loucura do ditador, ao longo do tempo, e o ódio da população oprimida, que explode na primeira fissura. No entanto, esta manifestação histórica reverbera por muito mais tempo que a explosão de ódio que a caracteriza.
O Khmer Vermelho estabeleceu que nenhum cambojano poderia ter lembranças saudosas do deposto rei Sihanouk: estas lembranças eram chamadas de “doença da memória”, e puníveis com a morte. Pois é disso mesmo que se trata o movimento neo-nazista que mancha nossos tempos: uma doença da memória que distorce os fatos e promove o líder enlouquecido a salvador, aquele que resgatou a soberania nacional e retirou o povo dos grilhões imperialistas.
Quando o ditador dominicano Rafael Leonidas Trujillo foi assassinado, em 1961, seu corpo recebeu muito mais balas do que seria necessário para a sua morte. Hoje, às vésperas do 49° aniversário de sua execução, se fala em trazer seus restos mortais de Madri para Santo Domingo, para enterrá-lo junto com os heróis nacionais do país. Seus apoiadores atuais alegam que Trujillo proporcionou uma longa fase de estabilidade política em um país marcado por golpes de estado.
O mesmo argumento poderá ser usado por descontentes com a revolução líbia, logo em sua primeira crise. Gaddafi, ao assumir o poder aos 27 anos, mudou a negociação dos países produtores de petróleo árabes com as empresas estrangeiras, aumentando o pagamento de royalties – no que foi seguido pelos outros países. Com o dinheiro, ele promoveu obras de infra-estrutura que, por sua vez, elevou a renda média líbia a um patamar nunca antes visto na história daquele país.
Além disso, ele tentou reunir sua Líbia com o Egito em nome do povo árabe e, com o fracasso, anos depois se tornou o porta-voz por uma África unida. E reforçou o papel da religião na sociedade líbia, ao promover um expurgo assim que tomou o poder. Ou seja: poderá ser invocado como um mártir tanto por ideólogos de esquerda quanto por fanáticos islâmicos. E não há nada pior do que o espectro de um ditador rondando uma democracia ainda pouco sólida, com o grave risco de se desmanchar.
No caso sírio, o pai de Bashir, Hafez al-Assad ('al" é o prefixo que homenageia Alá) foi o responsável por unificar a Síria com mão de ferro. Hafez promoveu a igualdade entre homens e mulheres, abriu o país à comunidade internacional e investiu pesado em educação, transporte e infraestrutura. Durante seu governo, descobriu-se o redentor petróleo.
Porém, Hafez também foi brutal. Considera-se que o massacre de Hama, em 1982, foi o mais violento ordenado por um árabe contra seu próprio povo. A lista de massacres liderados por Hafez vai e vai...
(Para as reflexões sobre justiça, usei o livro “Pequeno tratado das grandes virtudes”, de André Comte-Sponville).
Vejamos Muammar Gaddafi. O tratamento que ele recebeu ao ser descoberto pelas forças revolucionárias chocou o mundo. Morto em uma tubulação no meio do deserto, o ex-líder líbio foi enterrado em um lugar secreto, enquanto a população comemorava sua morte nas ruas. As fotos de seu cadáver circularam o mundo, a ponto de Barack Obama advertir, hoje, que “não devemos ter prazer com as imagens da morte de Gaddafi”.
É impossível não lembrar o destino de Nicolae Ceausescu, que governou a Romênia com mão de ferro por 25 anos, e de sua mulher, Elena, no natal de 1989. O casal foi condenado à morte em um julgamento que mais parecia ocorrer em uma sala escolar. Tanto o julgamento quanto a execução foram transmitidas ao vivo pela TV romena, fazendo com que a população saísse às ruas em comemoração.
Julgamento e execução de Nicolae Ceausescu
É a insanidade dos ditadores que causa um ódio tão extremo, a ponto de irromper em uma violência insana por parte da população libertada? Este é o paradoxo que parece assombrar as nações que acabam de recuperar sua liberdade: se a própria sociedade age como o ditador que acaba de derrubar, como esperar que a idéia de justiça prevaleça?
Este é um problema que mantém os filósofos ocupados desde há muito tempo. Para Aristóteles, a “justiça é a virtude completa”. No entanto, a justiça não faz a felicidade; é a felicidade quem depende dela. Sacrificar alguém em nome da humanidade não se trata, especificamente, de fazer justiça. Afinal, a justiça não é utilitária: ela deve ser um princípio moral, válida para todos e, no caso de ditadores, ainda mais – só a justiça pode evitar que outros ditadores apareçam no futuro. O problema é que a justiça só existe quando a fazemos.
No entanto, esta é uma visão racionalista. Quem dirá a um romeno, ou cambojano, ou dominicano, ou italiano, que ele deve suprimir suas emoções ao derrubar um ditador e enviá-lo a um julgamento justo, que o faça pagar pelos seus crimes com a perda de sua liberdade?
No Camboja, instalou-se um tribunal local para julgar os crimes cometidos pela liderança do Khmer Vermelho, de 1975 a 1979: cerca de 1,5 milhão de mortos, entre execuções, fome e trabalhos forçados. No período, as cidades foram esvaziadas e crianças foram armadas para vigiar os campos de trabalho forçado.
O líder do Khmer Vermelho, Pol Pot, morreu na noite em que sua extradição foi anunciada, em 1998. Há suspeitas de que tenha cometido suicídio ou que tenha sido envenenado. O número dois da organização, Nuon Chea, ou simplesmente “número dois”, está sendo julgado pelos tribunais cambojanos, com apoio da ONU. Ieng Sary, outro alto dirigente do Khmer Vermelho, anunciou hoje que não deporá contra o “número dois”. A população cambojana está alheia ao processo; o momento da catarse já passou. O sentimento de frustração gera a indiferença, que é como o país trata a questão.
Todos os réus, no caso do Camboja, têm mais de 80 anos. Se forem condenados, provavelmente sequer serão presos – mesmo porque muitos deles já estão em prisões domiciliares, com o apoio de seguidores e alguns familiares. A sensação, portanto, é a de que mesmo a justiça não cobra o devido preço pelos crimes cometidos.
Além disso, há a percepção de que cai o ditador, mas não o suporte que o mantém no poder – o que envolve, justamente, o sistema legal. Reformar o sistema legal para julgar um ditador pode dar a chance de movimentos contra-revolucionários, financiados por aqueles que se beneficiavam com o antigo regime, aparecerem e levarem a situação, em último caso, à guerra civil. Portanto, o caminho mais rápido para a revolução é matar o ditador.
Porém, não se trata de vingança, que fique claro: aqui, a racionalidade simplesmente não existe. Trata-se, apenas, de uma explosão de sentimentos que leva o oprimido a se tornar opressor, e transforma o opressor em oprimido – a razão simplesmente desaparece, para dar lugar a uma catarse coletiva de efeitos terríveis. Senão, o que dizer da cerimônia funeral de Benito Mussolini e de sua amante, Clara Petacci, pendurados de cabeça para baixo em um posto de gasolina não apenas para provar que estavam mortos, mas também para que a população lhe chutasse a cabeça?
Execução de Benito Mussolini:
Estas catarses parecem ser a manifestação histórica da perversa relação entre a loucura do ditador, ao longo do tempo, e o ódio da população oprimida, que explode na primeira fissura. No entanto, esta manifestação histórica reverbera por muito mais tempo que a explosão de ódio que a caracteriza.
O Khmer Vermelho estabeleceu que nenhum cambojano poderia ter lembranças saudosas do deposto rei Sihanouk: estas lembranças eram chamadas de “doença da memória”, e puníveis com a morte. Pois é disso mesmo que se trata o movimento neo-nazista que mancha nossos tempos: uma doença da memória que distorce os fatos e promove o líder enlouquecido a salvador, aquele que resgatou a soberania nacional e retirou o povo dos grilhões imperialistas.
Quando o ditador dominicano Rafael Leonidas Trujillo foi assassinado, em 1961, seu corpo recebeu muito mais balas do que seria necessário para a sua morte. Hoje, às vésperas do 49° aniversário de sua execução, se fala em trazer seus restos mortais de Madri para Santo Domingo, para enterrá-lo junto com os heróis nacionais do país. Seus apoiadores atuais alegam que Trujillo proporcionou uma longa fase de estabilidade política em um país marcado por golpes de estado.
O mesmo argumento poderá ser usado por descontentes com a revolução líbia, logo em sua primeira crise. Gaddafi, ao assumir o poder aos 27 anos, mudou a negociação dos países produtores de petróleo árabes com as empresas estrangeiras, aumentando o pagamento de royalties – no que foi seguido pelos outros países. Com o dinheiro, ele promoveu obras de infra-estrutura que, por sua vez, elevou a renda média líbia a um patamar nunca antes visto na história daquele país.
Além disso, ele tentou reunir sua Líbia com o Egito em nome do povo árabe e, com o fracasso, anos depois se tornou o porta-voz por uma África unida. E reforçou o papel da religião na sociedade líbia, ao promover um expurgo assim que tomou o poder. Ou seja: poderá ser invocado como um mártir tanto por ideólogos de esquerda quanto por fanáticos islâmicos. E não há nada pior do que o espectro de um ditador rondando uma democracia ainda pouco sólida, com o grave risco de se desmanchar.
No caso sírio, o pai de Bashir, Hafez al-Assad ('al" é o prefixo que homenageia Alá) foi o responsável por unificar a Síria com mão de ferro. Hafez promoveu a igualdade entre homens e mulheres, abriu o país à comunidade internacional e investiu pesado em educação, transporte e infraestrutura. Durante seu governo, descobriu-se o redentor petróleo.
Porém, Hafez também foi brutal. Considera-se que o massacre de Hama, em 1982, foi o mais violento ordenado por um árabe contra seu próprio povo. A lista de massacres liderados por Hafez vai e vai...
(Para as reflexões sobre justiça, usei o livro “Pequeno tratado das grandes virtudes”, de André Comte-Sponville).
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Então, tá
Acabo de me inteirar que a concessionária do metrô do Rio de Janeiro é a mesma empresa que opera a linha Once-Sarmiento em Buenos Aires: a TBA.
A linha ganhou destaque internacional, como todos sabem, com o acidente que matou uns 300 passageiros causado pelo trem que não freiou ao chegar na estação de Once.
A TBA faz parte de uma holding 100% composta de capitais argentinos, chamada COMETRANS SA. Aparentemente, a holding é de propriedade de Claudio Cirigliano, um entusiástico apoiador de Néstor Kirchner durante a sua presidência, de 2003 a 2007.
Uma crônica publicada no jornal argentino La Nación, com data de hoje e assinada por Carlos M. Reymundo Roberts, dá uma ideia do estilo de vida de Claudio Cirigliano.
Dono de três mansões na Província de Buenos Aires, mais empresas de transporte nos Estados Unidos e no Brasil, dono de helicópteros e iates e jatinho... Roberts dá a entender que Cirigliano só chegou lá devido à sua aliança com o histriônico ex-presidente argentino.
Hoje, a Defensoría del Pueblo de la Nación anunciou que solicitará a revogação da concessão da linha Once-Sarmiento. A decisão, porém, é do Ministério dos Transportes, pasta ocupada por Daniel Sciavi, íntimo de Cristina Kirschner. Uma decisão dura de tomar, como se pode ver. É o que dá governar por amizade e não por méritos. Agora, Cirigliano independe do Estado. Se a decisão for retomar a concessão, entregar a linha a outro grupo privado será um sonho: quem irá meter a mão nesta cumbuca?
Reestatizar a linha, solução mais provável, também não é uma terfa fácil. A linha está sucateada e precisará de muito investimento para prevenir acidentes fatais comno o ocorrido. Desnecessário dizer que o governo federal (e nem o provincial, muito menos o municipal) tem dinheiro para tanto. É o que dá querer criar uma iniciativa privada vinculada ao Estado: nem sempre o relacionamento é bom para os contribuintes.
Em tempo: no dia 16 de novembro de 2011, uma série de explosões em um dos vagões de uma composição do metrô carioca assustouos milhares de passageiros que saíam do show de Britney Spears. De acordo com a MetrôRio, nome da operação da TBA no Rio de Janeiro, houve uma avaria no vagão que causou as explosões. Ninguém ficou ferido.
A linha ganhou destaque internacional, como todos sabem, com o acidente que matou uns 300 passageiros causado pelo trem que não freiou ao chegar na estação de Once.
A TBA faz parte de uma holding 100% composta de capitais argentinos, chamada COMETRANS SA. Aparentemente, a holding é de propriedade de Claudio Cirigliano, um entusiástico apoiador de Néstor Kirchner durante a sua presidência, de 2003 a 2007.
Uma crônica publicada no jornal argentino La Nación, com data de hoje e assinada por Carlos M. Reymundo Roberts, dá uma ideia do estilo de vida de Claudio Cirigliano.
Dono de três mansões na Província de Buenos Aires, mais empresas de transporte nos Estados Unidos e no Brasil, dono de helicópteros e iates e jatinho... Roberts dá a entender que Cirigliano só chegou lá devido à sua aliança com o histriônico ex-presidente argentino.
Hoje, a Defensoría del Pueblo de la Nación anunciou que solicitará a revogação da concessão da linha Once-Sarmiento. A decisão, porém, é do Ministério dos Transportes, pasta ocupada por Daniel Sciavi, íntimo de Cristina Kirschner. Uma decisão dura de tomar, como se pode ver. É o que dá governar por amizade e não por méritos. Agora, Cirigliano independe do Estado. Se a decisão for retomar a concessão, entregar a linha a outro grupo privado será um sonho: quem irá meter a mão nesta cumbuca?
Reestatizar a linha, solução mais provável, também não é uma terfa fácil. A linha está sucateada e precisará de muito investimento para prevenir acidentes fatais comno o ocorrido. Desnecessário dizer que o governo federal (e nem o provincial, muito menos o municipal) tem dinheiro para tanto. É o que dá querer criar uma iniciativa privada vinculada ao Estado: nem sempre o relacionamento é bom para os contribuintes.
Em tempo: no dia 16 de novembro de 2011, uma série de explosões em um dos vagões de uma composição do metrô carioca assustouos milhares de passageiros que saíam do show de Britney Spears. De acordo com a MetrôRio, nome da operação da TBA no Rio de Janeiro, houve uma avaria no vagão que causou as explosões. Ninguém ficou ferido.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
As imagens mais marcantes do Google Street View
Um artista canadense chamado Jon Rafman vem catalogando as imagens mais impressionantes que foram obtidas pelo Google Street View, desde 2009. Agora, uma exposição virtual (e física também, que já passou por Paris e Nova York) mostra as fotografias mais surpreendentes coletadas por Rafman.
As fotos foram colocadas pelo artista no site 9-eyes.com. Reserve um bom tempo para apreender o inusitado, a poética e a violência das fotos selecionadas por Rafman (não, a foto da mulher caindo em Belo Horizonte não está incluída). As situações captadas pela câmera de nove lentes do Google (daí o nome do projeto) revelam, sobretudo, o absurdo da nossa vida cotidiana - e o absurdo, ainda maior, de não nos darmos conta disso.
As fotos foram colocadas pelo artista no site 9-eyes.com. Reserve um bom tempo para apreender o inusitado, a poética e a violência das fotos selecionadas por Rafman (não, a foto da mulher caindo em Belo Horizonte não está incluída). As situações captadas pela câmera de nove lentes do Google (daí o nome do projeto) revelam, sobretudo, o absurdo da nossa vida cotidiana - e o absurdo, ainda maior, de não nos darmos conta disso.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
The Artist
Se os filmes de Frank Capra são a herança cinematográfica da Grande Depressão, então "The Artist" é o legado desta crise que vivemos. The Artist é triste, romântico, engraçado e, principalmente, otimista - como os filmes de Capra. E, por isso, o retrato fiel dos nossos tempos.
Isso para não falar da ousadia do diretor Michel Hazanavicius de fazer um filme mudo (bem, nem tão mudo assim). E em preto e branco. E sem estrelas (se você assistiu "Os Flintstones", irá se lembrar de John Goodman. E, se você assistiu "Los Angeles, Cidade Proibida", irá se lembrar de James Cromwell - e só). E ser indicado para 10 estatuetas do Oscar.
O filme narra a trajetória descendente de uma estrela do cinema mudo, George Valentin (o ótimo Jean Dujardin), e a trajetória ascendente de Peppy Miller (a estupenda franco-argentina Bérénice Bejo). Ambos estão ligados pelo fato de Valentin ter ajudado Miller em seu começo de carreira, e também o fato de que uma mudança tecnológica define o futuro dos dois - neste caso, o cimema falado.
Mais sobre o enredo do filme não digo: é preciso assistir. Não teorizarei sobre os sentimentos dos dois personagens, sobre o efeito da mudança tecnológica sobre os destinos deles, muito manos farei mais ligações entre os filmes de Capra (especialmente "Do Mundo Nada se Leva") e "The Artist". Repito: é preciso assistir o filme e fazer as conexões diretamente na sua cabeça.
É impressionante como "The Artist" utiliza os elementos da "Gilded Age" para construir uma estética que não é retrô e nem vintage: é o século 21 nu e cru, assumindo com todas as letras que a inspiração agora está em olhar para trás. O futuro acabou: o filme mais inovador dos últimos tempos é baseado integralmente nos primórdios da sétima arte.
Não que "The Artist" seja o primeiro filme mudo depois que a voz foi introduzida no cinema. O genial Mel Brooks já tinha feito isso antes, com "The Silent Movie", de 1976, e provavelmente outros antes e depois de Brooks tenham arriscado a mesma estratégia. No entanto, nenhum destes filmes conseguiu capturar o espírito de nosso tempo como "The Artist".
Isso para não falar da ousadia do diretor Michel Hazanavicius de fazer um filme mudo (bem, nem tão mudo assim). E em preto e branco. E sem estrelas (se você assistiu "Os Flintstones", irá se lembrar de John Goodman. E, se você assistiu "Los Angeles, Cidade Proibida", irá se lembrar de James Cromwell - e só). E ser indicado para 10 estatuetas do Oscar.
O filme narra a trajetória descendente de uma estrela do cinema mudo, George Valentin (o ótimo Jean Dujardin), e a trajetória ascendente de Peppy Miller (a estupenda franco-argentina Bérénice Bejo). Ambos estão ligados pelo fato de Valentin ter ajudado Miller em seu começo de carreira, e também o fato de que uma mudança tecnológica define o futuro dos dois - neste caso, o cimema falado.
Mais sobre o enredo do filme não digo: é preciso assistir. Não teorizarei sobre os sentimentos dos dois personagens, sobre o efeito da mudança tecnológica sobre os destinos deles, muito manos farei mais ligações entre os filmes de Capra (especialmente "Do Mundo Nada se Leva") e "The Artist". Repito: é preciso assistir o filme e fazer as conexões diretamente na sua cabeça.
É impressionante como "The Artist" utiliza os elementos da "Gilded Age" para construir uma estética que não é retrô e nem vintage: é o século 21 nu e cru, assumindo com todas as letras que a inspiração agora está em olhar para trás. O futuro acabou: o filme mais inovador dos últimos tempos é baseado integralmente nos primórdios da sétima arte.
Não que "The Artist" seja o primeiro filme mudo depois que a voz foi introduzida no cinema. O genial Mel Brooks já tinha feito isso antes, com "The Silent Movie", de 1976, e provavelmente outros antes e depois de Brooks tenham arriscado a mesma estratégia. No entanto, nenhum destes filmes conseguiu capturar o espírito de nosso tempo como "The Artist".
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
A verdade revelada
O texto é de outubro de 2011, mas ainda extremamente atual.
"O jornal inglês The Guardian publicou uma reportagem esclarecedora sobre o papel da imprensa brasileira, em especial o da revista Veja, sobre os casos de corrupção que atingem o governo Dilma. O link para a matéria está aqui.
Na reportagem, há depoimentos de Eurípedes Alcântara, editor da Veja e chamado pelo jornal inglês de "jornalista mais poderoso do Brasil". Pode até ser, embora eu desconfie que a valorização do entrevistado seja mais para fins de valorizar a própria entrevista. Porém, se Alcântara for de fato o jornalista mais poderoso do Brasil, então temos um problema.
Na entrevista, Alcântara afirma: "Não temos um Delta Force, temos receptores". Ele se refere aos 78 jornalistas da revista, distribuídos nas redações de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Segundo Alcântara, seus jornalistas são receptores porque grande parte das denúncias que a revista publica são fornecidas pelos próprios envolvidos no esquema de corrupção revelados. Este é o problema.
Por um ângulo, o problema pode ser descrito da seguinte forma: se Alcântara pode ser considerado o jornalista mais poderoso do Brasil, é porque ele comanda um dos veículos de comunicação mais poderosos do país. E, se a Veja for realmente um poderoso veículo de comunicação, o problema está em reconhecer que a revista é usada pelos corruptos como meio de chantagem para obter melhores condições nos saques de recursos públicos.
Veja o caso do PM que derrubou Orlando Silva, ex-ministro dos Esportes. Segundo o Estadão, que publicou as denúncias primeiro, o caso vinha desde 2004. Porque o PM não denunciou naquele momento, então?
Um outro ângulo para analisar o problema é este: se os jornalistas são meros receptores de denúncias, então qual é o poder investigativo da imprensa brasileira? Pelo menos na Veja, agora sabemos que é muito pequeno. Ora, uma imprensa sem poder de investigação é facilmente manipulável e, portanto, não cumpre seu papel em um sistema democrático. Ela publica apenas o que os grupos de interesse querem que seja divulgado. Neste caso específico da corrupção, os grupos de interesse são os corruptos. Portanto, não podemos esperar que a cruzada da Veja contra a corrupção, como Alcântara diz na reportagem do Ther Guardian ser a missão da revista, produza resultado algum. Trata-se apenas de trocar os ladrões. O esquema sempre continuará.
Podemos pensar que, pelo menos, as denúncias aparecem e inspiram protestos populares, ainda que incipientes. Aqui está a nossa esperança: que se a imprensa for a parte ingênua dos esquemas de corrupção, que a população não o seja.
"O jornal inglês The Guardian publicou uma reportagem esclarecedora sobre o papel da imprensa brasileira, em especial o da revista Veja, sobre os casos de corrupção que atingem o governo Dilma. O link para a matéria está aqui.
Na reportagem, há depoimentos de Eurípedes Alcântara, editor da Veja e chamado pelo jornal inglês de "jornalista mais poderoso do Brasil". Pode até ser, embora eu desconfie que a valorização do entrevistado seja mais para fins de valorizar a própria entrevista. Porém, se Alcântara for de fato o jornalista mais poderoso do Brasil, então temos um problema.
Na entrevista, Alcântara afirma: "Não temos um Delta Force, temos receptores". Ele se refere aos 78 jornalistas da revista, distribuídos nas redações de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Segundo Alcântara, seus jornalistas são receptores porque grande parte das denúncias que a revista publica são fornecidas pelos próprios envolvidos no esquema de corrupção revelados. Este é o problema.
Por um ângulo, o problema pode ser descrito da seguinte forma: se Alcântara pode ser considerado o jornalista mais poderoso do Brasil, é porque ele comanda um dos veículos de comunicação mais poderosos do país. E, se a Veja for realmente um poderoso veículo de comunicação, o problema está em reconhecer que a revista é usada pelos corruptos como meio de chantagem para obter melhores condições nos saques de recursos públicos.
Veja o caso do PM que derrubou Orlando Silva, ex-ministro dos Esportes. Segundo o Estadão, que publicou as denúncias primeiro, o caso vinha desde 2004. Porque o PM não denunciou naquele momento, então?
Um outro ângulo para analisar o problema é este: se os jornalistas são meros receptores de denúncias, então qual é o poder investigativo da imprensa brasileira? Pelo menos na Veja, agora sabemos que é muito pequeno. Ora, uma imprensa sem poder de investigação é facilmente manipulável e, portanto, não cumpre seu papel em um sistema democrático. Ela publica apenas o que os grupos de interesse querem que seja divulgado. Neste caso específico da corrupção, os grupos de interesse são os corruptos. Portanto, não podemos esperar que a cruzada da Veja contra a corrupção, como Alcântara diz na reportagem do Ther Guardian ser a missão da revista, produza resultado algum. Trata-se apenas de trocar os ladrões. O esquema sempre continuará.
Podemos pensar que, pelo menos, as denúncias aparecem e inspiram protestos populares, ainda que incipientes. Aqui está a nossa esperança: que se a imprensa for a parte ingênua dos esquemas de corrupção, que a população não o seja.
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