O FMI está buscando doadores para reforçar seu orçamento, com vistas a agir com maior poder de fogo para solucionar a crise européia. As conversas dão conta de que o FMI aumentaria seu poder de empréstimo, dos atuais US$ 380 bilhões, para US$ 600 bilhões. O dinheiro seria para socorrer os países mais afetados com a crise, como Portugal, Espanha, Itália e Grécia. O novo aporte seria efetuado pelos membros do fundo.
No entanto, o jornal inglês The Guardian informa que o FMI, na verdade, solicitaria este novo aporte de específicos membros: o G20, que inclui o Brasil. Pelas minhas contas (sou perfeitamente analfabeto em matemática, já aviso), nossa contribuição a este aporte poderia chegar a US$ 10,7 bilhões, levando em consideração que a nossa cota no fundo é de 1,79%. Para fins de comparação, o Reino Unido (cota de 4,51%) entraria com mais de US$ 27 bilhões.
A questão é que estamos em um paradoxo: somos grandes demais para sermos considerados “país em desenvolvimento”, mas somos ainda muito pequenos para sermos chamados de “país desenvolvido”. Como podemos contribuir com todo este dinheiro, se ainda sequer resolvemos problemas básicos, como analfabetismo, moradia, saneamento – e o mais importante de todos, educação?
O que parece é que estamos alimentando, com o nosso próprio suor, a ambição da elite política e econômica brasileira em se tornar membro do clube de elite dos países. Como podemos aspirar a uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, sendo que a criminalidade nas principais cidades brasileiras é uma das maiores do mundo?
O pior é a sensação de que nosso próprio suor também ajuda a sustentar estilos de vida melhores que o nosso. Iremos contribuir com uma montanha de dinheiro para resgatar países considerados “primeiro mundo” pela sua qualidade de vida, pela beleza de suas cidades, pelo nível de educação de seus habitantes, pela rede de segurança que o Estado lhes proporciona e muitos outros quesitos em que nossa qualidade de vida, aqui no Brasil nem se compara.
A decisão será tomada hoje, quarta-feira 18, em uma reunião no México. Até agora, não vi nenhuma publicação brasileira dando conta desta contribuição brasileira ao FMI. No Estadão.com, às 13h23, a notícia era essa aqui. A menção à contribuição brasileira aparece quase como um rodapé. No UOL, às 13h30, nada. Apenas uma notícia curiosa: segundo o IBGE, as famílias gastam mais com saúde do que o governo.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Bumerangue
"Bumerangue" é o novo livro de Michael Lewis - uma espécie de Sydney Sheldon da literatura econômica, em que a minúcia do estilo jornalístico se mistura com a velocidade do romance para relatar um "causo" das finanças. Lewis, porém, não é jornalista. Ele trabalhou no mercado financeiro por alguns anos e, rico, saiu para relatar sua experiência. O sucesso de vendas o inspirou a continuar escrevendo, até que a atual crise econômica lhe trouxe muitos temas para tratar.
A crise que começou em 2008 não só serviu como tema para Lewis, mas para muita gente. E haja assunto! Lewis, porém, reina soberano. Dois de seus livros migraram para o cinema, e a vendagem de seus livros continua alta. "Bumerangue", por exemplo, tinha até cartaz na Livraria Cultura - tratamento digno de autor best-seller.
Desta vez, Lewis migra da crise do sub-prime nos Estados Unidos para a crise do euro. O método, porém, continua o mesmo: falar sobre o esquisito, o absurdo, o nada habitual. Como o personagem de Ricardo Darín em "Um Conto Chinês", Lewis deixa os Estados Unidos e vai para a Europa, onde entrevista personagens de casos inacreditáveis, como o escândalo político que um monastério criou com especulação imobiliária na Grécia, um investidor que aposta no desastre europeu porque estudou tudo sobre a Islândia - e sua atração pelo país começou jogando War...
Porém, diferentemente de "The Quants", de Scott Patterson, que fala sobre os nerds matemáticos que, com suas equações operando em softwares, criaram investimentos surreais, "Bumerangue" submerge na psicologia destes personagens. O ponto alto do livro é quando Lewis vai à Frankfurt entrevistar o vice-presidente do Bundesbank. Na crise de 2008, todos os bancos do mundo se livravam de um investimento conhecido como CDO, que já tinha se mostrando uma fonte de prejuízos imensa. E quem comprava estes títulos? Os bancos alemães.
Para Lewis, os alemães têm uma relação conflituosa com a merda. O termo aparece em várias expressões carinhosas alemãs, inúmeros ditados populares... e ainda que os alemães fizessem merda comprando os CDOs tóxicos do mundo, a economia alemã permanece sólida como uma rocha. Ao explorar a crise econômica por este ângulo, Lewis se aproxima de "A Ética Protestante e o 'Espírito' Capitalista", de Max Weber. Porém, o alemão é um clássico, enquanto Lewis ainda é pouco mais do que um escritor de aeroporto.
É justamente isso que faz "Bumerangue" se destacar na multidão de livros sobre a crise: não estão lá apenas números e histórias de derrotas, mas a psicologia dos personagens envolvidos, vistos por um ângulo inusitado. Porém, vale um alerta: para entender não esta crise, mas todas, a leitura recomendada é "Lords of Finance", de Liaquat Ahamed, sobre a atuação dos quatro principais bancos centrais do mundo durante a Grande Depressão. Juntamente com "O Crash de 1929", de Galbraith, o leitor tem uma dimensão exata dos elementos que causam grandes crises, e pode se aprofundar na cobertura jornalística sobre a crise de 2008 com maior embasamento. Para os mais técnicos, o livro de Nouriel Roubini com Stephen Mihm, "A Economia das Crises", é o ideal.
E, para quem quer ler alguma coisa sobre o tema indo ou voltando do trabalho, "Bumerangue" é a pedida certa.
A crise que começou em 2008 não só serviu como tema para Lewis, mas para muita gente. E haja assunto! Lewis, porém, reina soberano. Dois de seus livros migraram para o cinema, e a vendagem de seus livros continua alta. "Bumerangue", por exemplo, tinha até cartaz na Livraria Cultura - tratamento digno de autor best-seller.
Desta vez, Lewis migra da crise do sub-prime nos Estados Unidos para a crise do euro. O método, porém, continua o mesmo: falar sobre o esquisito, o absurdo, o nada habitual. Como o personagem de Ricardo Darín em "Um Conto Chinês", Lewis deixa os Estados Unidos e vai para a Europa, onde entrevista personagens de casos inacreditáveis, como o escândalo político que um monastério criou com especulação imobiliária na Grécia, um investidor que aposta no desastre europeu porque estudou tudo sobre a Islândia - e sua atração pelo país começou jogando War...
Porém, diferentemente de "The Quants", de Scott Patterson, que fala sobre os nerds matemáticos que, com suas equações operando em softwares, criaram investimentos surreais, "Bumerangue" submerge na psicologia destes personagens. O ponto alto do livro é quando Lewis vai à Frankfurt entrevistar o vice-presidente do Bundesbank. Na crise de 2008, todos os bancos do mundo se livravam de um investimento conhecido como CDO, que já tinha se mostrando uma fonte de prejuízos imensa. E quem comprava estes títulos? Os bancos alemães.
Para Lewis, os alemães têm uma relação conflituosa com a merda. O termo aparece em várias expressões carinhosas alemãs, inúmeros ditados populares... e ainda que os alemães fizessem merda comprando os CDOs tóxicos do mundo, a economia alemã permanece sólida como uma rocha. Ao explorar a crise econômica por este ângulo, Lewis se aproxima de "A Ética Protestante e o 'Espírito' Capitalista", de Max Weber. Porém, o alemão é um clássico, enquanto Lewis ainda é pouco mais do que um escritor de aeroporto.
É justamente isso que faz "Bumerangue" se destacar na multidão de livros sobre a crise: não estão lá apenas números e histórias de derrotas, mas a psicologia dos personagens envolvidos, vistos por um ângulo inusitado. Porém, vale um alerta: para entender não esta crise, mas todas, a leitura recomendada é "Lords of Finance", de Liaquat Ahamed, sobre a atuação dos quatro principais bancos centrais do mundo durante a Grande Depressão. Juntamente com "O Crash de 1929", de Galbraith, o leitor tem uma dimensão exata dos elementos que causam grandes crises, e pode se aprofundar na cobertura jornalística sobre a crise de 2008 com maior embasamento. Para os mais técnicos, o livro de Nouriel Roubini com Stephen Mihm, "A Economia das Crises", é o ideal.
E, para quem quer ler alguma coisa sobre o tema indo ou voltando do trabalho, "Bumerangue" é a pedida certa.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Drive
Não é lá uma grande história: um homem, com um pé no submundo, se envolve com uma garota casada com um sujeito que está na prisão. O sujeito é libertado, mas deve pagar uma dívida; com a ajuda de seu novo amigo, tentam roubar uma loja de penhores, mas o cara é morto durante o assalto. Então nosso personagem tem de matar todos os que estão atrás do dinheiro do roubo, para salvar a vida da garota, agora uma viúva.
Se a história não é muito original (quem disse que todas as histórias já foram contadas?), a forma é inovadora. Primeiro filme do diretor dinamarquês Nicholas Winding Refn em Hollywood, "Drive" combina alguns truques de video-clip com uma fotografia como que plastificada (cortesia da captação digital de imagens... outro exemplo marcante é "Margin Call" que, ao contrário de "Drive", possui uma tonalidade de cor que parece ter sido filmado em preto e branco). O resultado é uma artificialidade proposital, como a velha dualidade que assombrou a geração anterior a minha: ferro versus plástico.
Foi um choque para meus pais ver que o painel do novo carro era de plástico. A sensação era de que não ia durar muito, de que foi feito de plástico justamente para quebrar logo e forçar uma nova venda, mas além disso, era o sinal de que o mundo havia mudado. Nada mais seria de longo prazo: não iríamos mais dar nomes aos automóveis, porque não iriam mais ficar muito tempo com a gente. Mudou a consistência, muda o relacionamento com as coisas; como as coisas fazem o mundo, logo o mundo também ficou descartável. Portanto, não adianta se envolver com o mundo; feito de coisas de curto prazo, o mundo seria inconstante demais para despertar algum sentimento de envolvimento. Quando nos apaixonássemos pelo mundo, ele já teria mudado, e teríamos de nos apaixonar de novo. Só que a paixão é sentimento de longo prazo... Não à toa, o visual do filme remete aos anos 80.
Igualmente, a fotografia impele o espectador a se manter distante do filme, porque Refn abusa da violência. Em "Drive", a câmera não vira o rosto; pelo contrário, adota a perspectiva de quem está cometendo a violência. Tudo aparece de frente, mas o sangue não jorra: escorre. Não há gritos, apenas o rosto deformado pela dor. Daí a fotografia "plastificada", como que estabelecendo uma proteção entre a violência na tela e o espectador.
"Drive" está previsto para entrar em exibição no dia 24 de fevereiro, sabe-se lá porque. A lógica da distribuição de filmes não é a mesma da do espectador, o que abre um espaço enorme para a pirataria prosperar.
Se a história não é muito original (quem disse que todas as histórias já foram contadas?), a forma é inovadora. Primeiro filme do diretor dinamarquês Nicholas Winding Refn em Hollywood, "Drive" combina alguns truques de video-clip com uma fotografia como que plastificada (cortesia da captação digital de imagens... outro exemplo marcante é "Margin Call" que, ao contrário de "Drive", possui uma tonalidade de cor que parece ter sido filmado em preto e branco). O resultado é uma artificialidade proposital, como a velha dualidade que assombrou a geração anterior a minha: ferro versus plástico.
Foi um choque para meus pais ver que o painel do novo carro era de plástico. A sensação era de que não ia durar muito, de que foi feito de plástico justamente para quebrar logo e forçar uma nova venda, mas além disso, era o sinal de que o mundo havia mudado. Nada mais seria de longo prazo: não iríamos mais dar nomes aos automóveis, porque não iriam mais ficar muito tempo com a gente. Mudou a consistência, muda o relacionamento com as coisas; como as coisas fazem o mundo, logo o mundo também ficou descartável. Portanto, não adianta se envolver com o mundo; feito de coisas de curto prazo, o mundo seria inconstante demais para despertar algum sentimento de envolvimento. Quando nos apaixonássemos pelo mundo, ele já teria mudado, e teríamos de nos apaixonar de novo. Só que a paixão é sentimento de longo prazo... Não à toa, o visual do filme remete aos anos 80.
Igualmente, a fotografia impele o espectador a se manter distante do filme, porque Refn abusa da violência. Em "Drive", a câmera não vira o rosto; pelo contrário, adota a perspectiva de quem está cometendo a violência. Tudo aparece de frente, mas o sangue não jorra: escorre. Não há gritos, apenas o rosto deformado pela dor. Daí a fotografia "plastificada", como que estabelecendo uma proteção entre a violência na tela e o espectador.
"Drive" está previsto para entrar em exibição no dia 24 de fevereiro, sabe-se lá porque. A lógica da distribuição de filmes não é a mesma da do espectador, o que abre um espaço enorme para a pirataria prosperar.
sábado, 14 de janeiro de 2012
as 10 músicas principais do punk
Não há melhor coisa para semear a discórdia entre os homens (e as mulheres) do que... listas. Aquela história de que gosto não se discute é balela. As preferências estão intimamente ligadas à personalidade, portanto se um não gosta da minha música preferida, então não gosta de mim. É simples assim, embora muita gente não entenda.
Portanto, vamos de listas! A primeira é sobre as 10 músicas principais do que se convencionou chamar de punk: barulho, atitude e coragem. No começo de tudo, os ingredientes do punk (quando ainda nem existia este nome) eram guitarras e tédio. Depois o tédio foi substituído pela revolta; depois, a guitarra foi substituída pela eletrônica, e o hedonismo entra em cena. Tudo a ver com o final do século 20, e o começo deste século 21.
Esta lista apresenta as 10 músicas que mais representam o punk, em suas diversas faces.
Ancestrais
MC5 - "Kick Out the Jams"
O punk começou no norte dos Estados Unidos: "kick out the jams, motherfucker!" Era 1969 (que reaparecerá adiante), e uns cabeludos malucos de Detroit (então chamada de Motor City, daí o MC do nome da banda) cantavam sobre groupies, enquanto outros tipos de cabeludos malucos pregavam paz e amor. Enquanto os hippies tentavam levitar a Casa Branca, em um protesto contra a Guerra do Vietnã, Wayne Kramer e asseclas faziam o maior barulho possível em porões enfumaçados. Nada de Era de Aquário, California Dreamin' ou Woodstock: em Detroit, só há cinza, concreto e fumaça, de carros e das fábricas que os produzem. O único jeito então é escapar pelo sexo, drogas e rock'n'roll (embora, aparentemente, a expressão só seria registrada em música por Ian Dury, lá por 1976). O futuro do pop em seu nascedouro: depois viriam Sex Pistols, Joy Division e My Bloody Valentine, declarando que o barulho é a definitiva expressão do tédio. Porém, antes de todos eles, tinha os...
The Stooges - "I Wanna Be Your Dog"
Quanto tempo eu fiquei para me decidir entre esta e "1969"... e agora, ainda não sei se escolhi a música certa. De qualquer forma, "I Wanna Be Your Dog" é crua e pop, violenta e doce ("So messed up I want you here" são os primeiros versos), o suprassumo do tédio (tanto quanto "1969"). São basicamente três acordes (G, F#, E) e uma nota exaustivamente repetida no piano (cortesia de John Cale, que produziu o disco de estréia onde tem esta música) ocupando pouca coisa mais que 3 minutos. A música é totalmente absoluta: basicamente todo mundo importante no pop fez sua cover. Aqui, o tédio, a carência, a apatia ganha distorção e peso, com uma batida cavalar - a melhor linha de bateria do punk, mesmo que Iggy Pop nem imaginasse que sua banda poderia ser classificada assim. Hoje ele sabe, mas não sei se aprova...
A Santíssima Trindade
The Clash - "London Calling"
É a sensação de urgência que torna esta música um clássico: nos pouco mais de 3 minutos da música, parece que o Tâmisa irá alagar Londres e que nada mais terá salvação. É a tensão que permeia a música, fornecida pelos vocais de Strummer, o baixo angustiante (e com forte influência de reggae) de Simonon e a bateria incessante de Headon. Talvez a melhor música punk de todos os tempos, ainda que não seja tão punk assim. "London Calling" e "Transmission", do Joy Division, capturaram melhor que nenhuma outra música a atmosfera do final dos anos 70 no Reino Unido - ambas foram lançadas em 1979.
Sex Pistols - "Pretty Vacant"
Para quê trabalhar? As férias são tão bacanas... ainda mais se forem indefinidas.Ah, somos tão inúteis... o hedonismo em sua forma mais radical. E também diversão radical: Rotten (ou Lydon) pronuncia "vacant" de forma a deixar implícita a palavra "cunt". Lançada no auge da crise econômica que levaria Margaret Thatcher ao governo, "Pretty Vacant" é o anúncio de que a juventude havia cansado: não haveria mais maio de 1968, e sim quebras-quebras como os de 2011, apenas para conseguir mercadorias e dar vazão ao tédio. A música é de 1977, e ainda ninguém levou o aviso a sério...
Dead Kennedys - "Holiday in Cambodia"
O começo parece música de filme de super-herói dos anos 60, mas depois que entra a voz de Jello Biafra, dá para entender: enquanto a juventude no Ocidente pensa que por ter diploma e uma boa vida, basta protestar contra o sistema, no Oriente as coisas vão seguindo cada vez piores, como a ditadura totalitária imposta por Pol Pot ao Cambodia (Pol Pot estudou na França, nos anos 50).
O vocal de Jello Biafra reflete a ironia da letra de forma que chega a ser divertido. Composta durante a brutal ditadura do Khmer Vermelho no Cambodia, a música não foi adotada pelos surfistas (como "California Über Alles" foi nos anos 80; que agora ouçam coisas como Jack Johnson é de dar risada) e meio que passou batida por aqui ("que diabos é Cambodia????"). O Dead Kennedys não tinham o visual punk que marcou o Clash e o Sex Pistols. Porém, na média, seu disco estréia é melhor do que os de seus congêneres ingleses. E as letras, melhores também.
Correndo por fora:
The Scars - "Horrorshow"
Era uma música completamente esquecida até que Lemon Jelly a usou para criar "The Shouty Track", e o The Scars teve mais fama de quando eram jovens. A letra cita "Laranja Mecânica", mas nem é o vocal ou a guitarra que chamam a atenção: é o baixo. Nunca uma música punk teve uma linha de baixo tão decente quanto "Horrorshow". É o baixo quem conduz a música, já que a guitarra preocupa-se em apenas organizar harmonicamente o barulho e a distorção. Brilhante - pena que as demais músicas da banda nem cheguem perto de "Horrorshow".
Não é punk, mas é como se fosse:
The Jam - "That's Entertainment"
O arranjo é mínimo: um violão, um baixo e um pandeiro. O resultado é absurdo: uma descrição perfeita de uma vida classe média no Reino Unido do final dos anos 70. Esta música poderia ser o hino deste blog: o barulho é entretenimento, diz a letra. Paul Weller é capaz de escrever versos como "Two lovers kissing amongst the scream of midnight/Two lovers missing the tranquillity of solitude". André Malraux escreveu que as 6 horas da manhã é o horário dos pequenos destinos; Weller responde: "Waking up at 6 a.m. on a cool warm morning / Opening the windows and breathing in petrol". É a vida na cidade: barulho, poluição, pequenos destinos. Embora a música esteja longe de representar o estilo do The Jam, é sua criação mais perfeita.
Mantendo o espírito punk:
M.A.R.R.S. - "Pump Up the Volume"
Vamos partir de um fato e de um delírio: o fato é que o punk é, basicamente, o conceito do Faça Você Mesmo, um tapa na cara dos esnobes progressivos que infestavam a música nos anos 70, a força conservadora que hoje se mostra com toda força no heavy metal virtuoso. O delírio: e se tudo tiver um fim, inclusive a criatividade? E se tudo já foi realmente feito, como um monte de gente afirma? O fato e o delírio se encontram no M.A.R.R.S., o primeiro projeto musical a usar um treco chamado sampler, para construir uma das primeiras músicas inteiramente feita de músicas dos outros. Isso foi a reconstrução do pop nos anos 80, como a dupla Sex Pistols / The Clash foi a reconstrução do pop nos anos 70. A diferença é que o M.A.R.R.S. se apropriou de músicas dos outros para compor coisas inteiramente novas. No processo, entra rap e música árabe. Como resultado, M.A.R.R.S. foi um dos primeiros grupos a enfrentar ações judiciais por infração de copyrights (os conservadores nunca dormem). Não é punk na forma nem no estilo, mas na concepção e na ousadia. Clássico.
The KLF - "3am Eternal"
O punk como o conhecíamos foi morto pelo M.A.R.R.S; quem definitivamente o enterrou foi o KLF. Dois malucos que, dentre outros feitos, queimaram 1 milhão de libras (alegadamente, dinheiro dos royalties de seus 3 singles lançados em 1991, "3am Eternal" entre eles, que foram os mais vendidos naquele ano), foram processados pelo ABBA e escreveram um livro ensinando como ser popstar sem saber sequer tocar um instrumento ("se tiver um, jogue-o fora", lia-se no livro). Bill Drummond (um dos meus ídolos) e Jimmy Cauty saíram da música pop com uma festa no Brit Awards, onde convidaram o Extreme Noise Terror para uma versão de "3am Eternal" entrando no palco com metralhadoras de grampos de papel. Na porta do after-party, colocaram um carneiro morto, anunciando sua retirada do showbiz e apagando suas músicas do catálogo, além de proibir qualquer execução pública de suas músicas. Punk ou o que?
P.S.: Drummond morreu no final de 2010, e ganhou apenas algumas notinhas de jornal.
O futuro
Qualquer um que saiba usar computador - "Qualquer mashup"
O máximo do Faça Você Mesmo, a dissolução definitiva da barreira entre produtor e consumidor: o mashup. Pegue quantas músicas puder e: (a) faça outra ou (b) melhore a que você já gosta. O pop achou seu futuro, e ele não pertence a nenhum músico, a nenhuma gravadora - e sim, à tecnologia. Agora, é possível juntar Michael Jackson e Gorillaz, Bob Marley e Iron Maiden, Bee Gees e Pink Floyd. Como as músicas pop têm praticamente o mesmo tom, o mesmo tempo e a mesma duração, a criatividade pode ir a qualquer lugar com os baratíssimos e cada vez mais fáceis de usar softwares de edição de música. É como se uma pessoa comum, como eu ou você, levasse a máxima da arquitetura modernista ("menos é mais") ao limite. E, no processo, deixando claro que leis como as de copyrights são coisas do século passado. Com o mashup, a gente até esquece, por três minutos, de como o mundo é um lugar chato pra cacete.
Ramones vs. Jet: "Are You Gonna Be My Blizkrieg Girl" - DJ Faroff
P.S.: Sim, esta é a única aparição de Ramones nesta lista. Além de musicalmente fraquíssimos, não eram punks - você sabia que o Joey Ramone...
Portanto, vamos de listas! A primeira é sobre as 10 músicas principais do que se convencionou chamar de punk: barulho, atitude e coragem. No começo de tudo, os ingredientes do punk (quando ainda nem existia este nome) eram guitarras e tédio. Depois o tédio foi substituído pela revolta; depois, a guitarra foi substituída pela eletrônica, e o hedonismo entra em cena. Tudo a ver com o final do século 20, e o começo deste século 21.
Esta lista apresenta as 10 músicas que mais representam o punk, em suas diversas faces.
Ancestrais
MC5 - "Kick Out the Jams"
O punk começou no norte dos Estados Unidos: "kick out the jams, motherfucker!" Era 1969 (que reaparecerá adiante), e uns cabeludos malucos de Detroit (então chamada de Motor City, daí o MC do nome da banda) cantavam sobre groupies, enquanto outros tipos de cabeludos malucos pregavam paz e amor. Enquanto os hippies tentavam levitar a Casa Branca, em um protesto contra a Guerra do Vietnã, Wayne Kramer e asseclas faziam o maior barulho possível em porões enfumaçados. Nada de Era de Aquário, California Dreamin' ou Woodstock: em Detroit, só há cinza, concreto e fumaça, de carros e das fábricas que os produzem. O único jeito então é escapar pelo sexo, drogas e rock'n'roll (embora, aparentemente, a expressão só seria registrada em música por Ian Dury, lá por 1976). O futuro do pop em seu nascedouro: depois viriam Sex Pistols, Joy Division e My Bloody Valentine, declarando que o barulho é a definitiva expressão do tédio. Porém, antes de todos eles, tinha os...
The Stooges - "I Wanna Be Your Dog"
Quanto tempo eu fiquei para me decidir entre esta e "1969"... e agora, ainda não sei se escolhi a música certa. De qualquer forma, "I Wanna Be Your Dog" é crua e pop, violenta e doce ("So messed up I want you here" são os primeiros versos), o suprassumo do tédio (tanto quanto "1969"). São basicamente três acordes (G, F#, E) e uma nota exaustivamente repetida no piano (cortesia de John Cale, que produziu o disco de estréia onde tem esta música) ocupando pouca coisa mais que 3 minutos. A música é totalmente absoluta: basicamente todo mundo importante no pop fez sua cover. Aqui, o tédio, a carência, a apatia ganha distorção e peso, com uma batida cavalar - a melhor linha de bateria do punk, mesmo que Iggy Pop nem imaginasse que sua banda poderia ser classificada assim. Hoje ele sabe, mas não sei se aprova...
A Santíssima Trindade
The Clash - "London Calling"
É a sensação de urgência que torna esta música um clássico: nos pouco mais de 3 minutos da música, parece que o Tâmisa irá alagar Londres e que nada mais terá salvação. É a tensão que permeia a música, fornecida pelos vocais de Strummer, o baixo angustiante (e com forte influência de reggae) de Simonon e a bateria incessante de Headon. Talvez a melhor música punk de todos os tempos, ainda que não seja tão punk assim. "London Calling" e "Transmission", do Joy Division, capturaram melhor que nenhuma outra música a atmosfera do final dos anos 70 no Reino Unido - ambas foram lançadas em 1979.
Sex Pistols - "Pretty Vacant"
Para quê trabalhar? As férias são tão bacanas... ainda mais se forem indefinidas.Ah, somos tão inúteis... o hedonismo em sua forma mais radical. E também diversão radical: Rotten (ou Lydon) pronuncia "vacant" de forma a deixar implícita a palavra "cunt". Lançada no auge da crise econômica que levaria Margaret Thatcher ao governo, "Pretty Vacant" é o anúncio de que a juventude havia cansado: não haveria mais maio de 1968, e sim quebras-quebras como os de 2011, apenas para conseguir mercadorias e dar vazão ao tédio. A música é de 1977, e ainda ninguém levou o aviso a sério...
Dead Kennedys - "Holiday in Cambodia"
O começo parece música de filme de super-herói dos anos 60, mas depois que entra a voz de Jello Biafra, dá para entender: enquanto a juventude no Ocidente pensa que por ter diploma e uma boa vida, basta protestar contra o sistema, no Oriente as coisas vão seguindo cada vez piores, como a ditadura totalitária imposta por Pol Pot ao Cambodia (Pol Pot estudou na França, nos anos 50).
O vocal de Jello Biafra reflete a ironia da letra de forma que chega a ser divertido. Composta durante a brutal ditadura do Khmer Vermelho no Cambodia, a música não foi adotada pelos surfistas (como "California Über Alles" foi nos anos 80; que agora ouçam coisas como Jack Johnson é de dar risada) e meio que passou batida por aqui ("que diabos é Cambodia????"). O Dead Kennedys não tinham o visual punk que marcou o Clash e o Sex Pistols. Porém, na média, seu disco estréia é melhor do que os de seus congêneres ingleses. E as letras, melhores também.
Correndo por fora:
The Scars - "Horrorshow"
Era uma música completamente esquecida até que Lemon Jelly a usou para criar "The Shouty Track", e o The Scars teve mais fama de quando eram jovens. A letra cita "Laranja Mecânica", mas nem é o vocal ou a guitarra que chamam a atenção: é o baixo. Nunca uma música punk teve uma linha de baixo tão decente quanto "Horrorshow". É o baixo quem conduz a música, já que a guitarra preocupa-se em apenas organizar harmonicamente o barulho e a distorção. Brilhante - pena que as demais músicas da banda nem cheguem perto de "Horrorshow".
Não é punk, mas é como se fosse:
The Jam - "That's Entertainment"
O arranjo é mínimo: um violão, um baixo e um pandeiro. O resultado é absurdo: uma descrição perfeita de uma vida classe média no Reino Unido do final dos anos 70. Esta música poderia ser o hino deste blog: o barulho é entretenimento, diz a letra. Paul Weller é capaz de escrever versos como "Two lovers kissing amongst the scream of midnight/Two lovers missing the tranquillity of solitude". André Malraux escreveu que as 6 horas da manhã é o horário dos pequenos destinos; Weller responde: "Waking up at 6 a.m. on a cool warm morning / Opening the windows and breathing in petrol". É a vida na cidade: barulho, poluição, pequenos destinos. Embora a música esteja longe de representar o estilo do The Jam, é sua criação mais perfeita.
Mantendo o espírito punk:
M.A.R.R.S. - "Pump Up the Volume"
Vamos partir de um fato e de um delírio: o fato é que o punk é, basicamente, o conceito do Faça Você Mesmo, um tapa na cara dos esnobes progressivos que infestavam a música nos anos 70, a força conservadora que hoje se mostra com toda força no heavy metal virtuoso. O delírio: e se tudo tiver um fim, inclusive a criatividade? E se tudo já foi realmente feito, como um monte de gente afirma? O fato e o delírio se encontram no M.A.R.R.S., o primeiro projeto musical a usar um treco chamado sampler, para construir uma das primeiras músicas inteiramente feita de músicas dos outros. Isso foi a reconstrução do pop nos anos 80, como a dupla Sex Pistols / The Clash foi a reconstrução do pop nos anos 70. A diferença é que o M.A.R.R.S. se apropriou de músicas dos outros para compor coisas inteiramente novas. No processo, entra rap e música árabe. Como resultado, M.A.R.R.S. foi um dos primeiros grupos a enfrentar ações judiciais por infração de copyrights (os conservadores nunca dormem). Não é punk na forma nem no estilo, mas na concepção e na ousadia. Clássico.
The KLF - "3am Eternal"
O punk como o conhecíamos foi morto pelo M.A.R.R.S; quem definitivamente o enterrou foi o KLF. Dois malucos que, dentre outros feitos, queimaram 1 milhão de libras (alegadamente, dinheiro dos royalties de seus 3 singles lançados em 1991, "3am Eternal" entre eles, que foram os mais vendidos naquele ano), foram processados pelo ABBA e escreveram um livro ensinando como ser popstar sem saber sequer tocar um instrumento ("se tiver um, jogue-o fora", lia-se no livro). Bill Drummond (um dos meus ídolos) e Jimmy Cauty saíram da música pop com uma festa no Brit Awards, onde convidaram o Extreme Noise Terror para uma versão de "3am Eternal" entrando no palco com metralhadoras de grampos de papel. Na porta do after-party, colocaram um carneiro morto, anunciando sua retirada do showbiz e apagando suas músicas do catálogo, além de proibir qualquer execução pública de suas músicas. Punk ou o que?
P.S.: Drummond morreu no final de 2010, e ganhou apenas algumas notinhas de jornal.
O futuro
Qualquer um que saiba usar computador - "Qualquer mashup"
O máximo do Faça Você Mesmo, a dissolução definitiva da barreira entre produtor e consumidor: o mashup. Pegue quantas músicas puder e: (a) faça outra ou (b) melhore a que você já gosta. O pop achou seu futuro, e ele não pertence a nenhum músico, a nenhuma gravadora - e sim, à tecnologia. Agora, é possível juntar Michael Jackson e Gorillaz, Bob Marley e Iron Maiden, Bee Gees e Pink Floyd. Como as músicas pop têm praticamente o mesmo tom, o mesmo tempo e a mesma duração, a criatividade pode ir a qualquer lugar com os baratíssimos e cada vez mais fáceis de usar softwares de edição de música. É como se uma pessoa comum, como eu ou você, levasse a máxima da arquitetura modernista ("menos é mais") ao limite. E, no processo, deixando claro que leis como as de copyrights são coisas do século passado. Com o mashup, a gente até esquece, por três minutos, de como o mundo é um lugar chato pra cacete.
Ramones vs. Jet: "Are You Gonna Be My Blizkrieg Girl" - DJ Faroff
P.S.: Sim, esta é a única aparição de Ramones nesta lista. Além de musicalmente fraquíssimos, não eram punks - você sabia que o Joey Ramone...
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
a poesia de manoel de barros
Por quê há má poesia, má música, maus livros? Por quê há má filosofia e má ciência? Oras, porque o pensamento que prevalece neste mundo ocidental apresenta falhas. E estas falhas estão justamente na base que funda este pensamento: o sistema de interpretação do mundo.
O modo como interpretamos os eventos da natureza é a origem do nosso sistema de pensamento. Tudo na começou na Grécia, com a constatação das alternâncias que a natureza proporciona: noite e dia, chuva e sol, frio e calor... Esta idéia de que tudo tem apenas dois lados diferentes permeia todo o nosso pensamento, há mais de 25 séculos.
Este sistema, baseado nas diferenças entre os estados da matéria, nos deu, entre outras coisas, o código binário, que me permite escrever neste blog, e - mais importante, porque está intimamente ligado às perguntas acima - o sistema de adjetivos, que é o mesmo para todos os idiomas ocidentais. Este sistema de adjetivos reflete a alternância da natureza: bonito/feio, bom/ruim, bondade/maldade...
O problema, porém, é o meio termo. Este sistema de raciocínio não nos permite compreender aquele estado que não é absoluto. Por exemplo: um copo com água pela metade - está ele semi-vazio ou semi-cheio? Veja que, independentemente da resposta, a simples possibilidade de que as duas condições sejam válidas já é uma contradição com todo o sistema, que postula apenas uma condição para cada estado da matéria.
André Comte-Sponville, em seu "Pequeno Tratado das Grandes Virtudes", imagina um oficial nazista, extremamente cruel em seu trabalho no campo de concentração de Auschwitz, que ao chegar em casa é um pai exemplar e um ótimo vizinho, envolvido nos assuntos de sua comunidade e estimado por todos. Este nazista é um bom homem, um mau homem - ou ambos?
A situação não melhora quando passamos a raciocinar pelo caminho oposto - o das semelhanças. A idéia é de Platão: ele afirma, em "A República", que todas as coisas do mundo têm uma forma básica, de onde saem tudo o que habita o mundo. Ele dá o exemplo do cavalo: embora os cavalos tenham diferentes cores, tamanhos e pelagem, todos eles têm elementos em comum que permitem se dar um nome só para aquele animal. Estes elementos em comum são a fôrma de onde saem os cavalos.
Esta é a base do nosso sistema linguístico, como estabelece Ferdinand Saussure e sua idéia de que um signo (uma palavra) consiste em um "conceito" - seu significado - e uma "imagem sonora" - o significante. Podemos pensar que o "conceito" equivale à fôrma de Platão, já que, independente do idioma, a conceito de uma cadeira é o mesmo em todos os povos; e a "imagem sonora" seria as palavras que descendem este "conceito" que lhes dá forma, múltiplas em termos de idioma, mas únicas por nascerem da mesma fonte.
O problema, aqui, é que este sistema não é profundo o suficiente para entender o meio termo. Fritjof Capra explica como a linguagem é insuficiente para descrever (e nos fazer entender) os problemas da física quântica; e todo o seu "Tao da Física" pretende convencer que nosso pensamento, criado pelos gregos e aperfeiçoado por Descartes, é incapaz de apreender as características do mundo sub-atômico - justamente a parte da natureza que não podemos observar.
E essa é exatamente a questão: nosso sistema de raciocínio funda-se totalmente em apenas um dos cinco sentidos - a visão. O que não podemos observar, não temos como explicar; e, por causa desta deficiência, não conseguimos compreender os fenômenos naturais que ocorrem dentro de nós: os sentimentos.
Diz a lenda que a palavra "saudade" existe apenas em português (há um termo semelhante em galego: "morriña"). Há vários termos em outros idiomas que captam, porém, apenas um aspecto dentre os vários que a palavra "saudade" possui. No entanto, é possível para alguém explicar a um forasteiro o que é "saudade"? Em 2004, uma empresa de traduções britânica classificou o termo como o sétimo mais difícil de traduzir dentre todas as palavras.
Joelmir Betting uma vez disse: "É praticamente impossível definir o que é ser palmeirense para quem não é, e completamente desnecessário explicar para quem é". Esta é a encruzilhada em que está a palavra "saudade": ela não pode ser apreendida pela razão, é preciso senti-la. Porque quando sentimos, compreendemos o que é saudade em toda a sua extensão; mas aí, não nos é possível exprimir o que sentimos em palavras, em idéias, em conceitos. Ou seja: a palavra "saudade" não descende de um "conceito", de uma "fôrma". É um termo à deriva da razão, pois está ancorada firmemente naquela parte de nós em que o "coração" governa.
A questão é a mesma em relação a outro sentimento praticamente impossível de se apreender pela razão: o tédio. Lars Svendsen, em "Filosofia do Tédio", afirma que o tédio é uma "morte em existência". Svendsen tenta mostrar, aqui, que não é tanto a palavra que nos dará a mensagem, que nos fará compreender o que é o tédio, mas sim a imagem que a concatenação daquelas palavras constrói na nossa imaginação. Ou seja, nem é a imagem sonora ou o conceito que importam, aqui, mas a imagem mental, aquela que formamos dentro de nós e aciona os sentimentos e não a razão, e que nos dará a mensagem pretendida pelo autor.
Há uma subversão implícita na idéia de imagem mental, em relação ao domínio da razão sobre o pensamento ocidental, porque ela abandona por completo todo o sistema que fundamenta o modo como pensamos e, por conseguinte, agimos. Em outras palavras (e idéias), a lógica já não é mais necessária e, sem ela, também se torna inútil a padronização do pensamento: as idéias não precisam ser mais as mesmas para todos. Cada indivíduo pode ter a sua imagem mental.
E o passaporte para isso é a poesia. É interessante notar como a poesia contemporânea se libertou da prisão da forma e do conteúdo para se dedicar totalmente à criação de imagens mentais.
A poesia moderna começa com Dante Alighieri. "A Divina Comédia" indica o caminho para a poesia que virá: o ritmo das palavras se sobrepõe à criação de imagens e o estilo é soberano. Dante escreveu seu épico em 100 cantos, divididos em 3 cânticos, em um esquema de versos chamado terza rima, utilizado pela primeira vez justamente por Dante: stanzas de três versos no padrão aba, bcb, cdc e assim por diante. Cada verso tem 11 sílabas. Alguns críticos afirmam que a preponderância do número 3 no épico (3 cânticos, 3 versos e assim por diante) tem conotação religiosa, simbolizando a Santíssima Trindade.
Com o poema, Dante cristalizou o dialeto toscanês como o idioma nacional da Itália e influenciou vários outros poetas, como Byron, Shelley, Chaucer (todos ingleses, apesar do idioma de Shakespeare dificultar a composição nesta forma) e John Milton.
"Paraíso Perdido" foi escrito quando Milton estava cego - ele ditou a obra para a sua esposa. Milton não utilizou a terza rima neste poema - ele preferiu versos brancos, que mantêm a métrica, mas dispensam a rima. Sua obra foi tão influente para o desenvolvimento da poesia que seu uso dos versos brancos foi chamado de Miltônico, já que seu estilo foi obrigatório para aqueles que tentaram escrever épicos no idioma inglês nos séculos seguintes.
Tanto Alighieri quanto Milton subordinaram suas obras à razão, e usaram a lógica do pensamento ocidental, no formato de estilos, métricas (a simetria é, justamente, uma das forças que nasceram do pensamento ocidental a moldar a criação artística) e rimas. A criação de imagens mentais, nos dois casos, é fortíssima; no entanto, não era isso a preocupação inicial dos dois autores. O ritmo das palavras, que implica em uma lógica de encadeamento, era, talvez, a maior preocupação estilística de ambos, já que viviam em uma época em que a imprensa não existia (Dante) ou era de uso muito restrito (Milton) e, por isso, confiavam na propagação de suas obras pela via oral.
Há um vínculo entre a razão e a emoção na leitura destas obras que subordina a última à primeira - é preciso compreender a imagem mental proposta pelo poeta para poder senti-la. Na poesia contemporânea, a tentativa é justamente quebrar este vínculo e estabelecer uma relação direta entre as palavras que constroem a imagem mental e a compreensão direta pelos sentidos do leitor.
Esta é a proposta de Manuel de Barros. Em nenhum outro livro dele está mais clara sua proposta de destruir a conexão razão/emoção do que em "O Livro das Ignorãnças", onde ele define sua visão de poesia:
"No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras".
Ele propõe um delírio do verbo para criar novas realidades na mente de quem lê:
"No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos --
O verbo tem de pegar delírio."
Em Manoel de Barros, não há necessidade de lógica alguma. É como se ele afirmasse que a subordinação da emoção à razão fosse efetuada pela lógica e, portanto, suprimi-la equivale a anular a razão e falar diretamente à razão. Assim, a imagem mental proposta pelo poema é formada de súbito na mente do leitor, sem que se possa compreender o processo pelo qual ela foi formada. É muito mais uma questão de intuição do que de razão. É preciso, porém, preparar-se para a leitura de um poema de Manoel de Barros. É necessário aprender a "pensar sem lógica" para apreender e desfrutar a experiência de ler um poema em que a construção de imagens mentais é soberana em relação à forma e ao conteúdo.
O modo como interpretamos os eventos da natureza é a origem do nosso sistema de pensamento. Tudo na começou na Grécia, com a constatação das alternâncias que a natureza proporciona: noite e dia, chuva e sol, frio e calor... Esta idéia de que tudo tem apenas dois lados diferentes permeia todo o nosso pensamento, há mais de 25 séculos.
Este sistema, baseado nas diferenças entre os estados da matéria, nos deu, entre outras coisas, o código binário, que me permite escrever neste blog, e - mais importante, porque está intimamente ligado às perguntas acima - o sistema de adjetivos, que é o mesmo para todos os idiomas ocidentais. Este sistema de adjetivos reflete a alternância da natureza: bonito/feio, bom/ruim, bondade/maldade...
O problema, porém, é o meio termo. Este sistema de raciocínio não nos permite compreender aquele estado que não é absoluto. Por exemplo: um copo com água pela metade - está ele semi-vazio ou semi-cheio? Veja que, independentemente da resposta, a simples possibilidade de que as duas condições sejam válidas já é uma contradição com todo o sistema, que postula apenas uma condição para cada estado da matéria.
André Comte-Sponville, em seu "Pequeno Tratado das Grandes Virtudes", imagina um oficial nazista, extremamente cruel em seu trabalho no campo de concentração de Auschwitz, que ao chegar em casa é um pai exemplar e um ótimo vizinho, envolvido nos assuntos de sua comunidade e estimado por todos. Este nazista é um bom homem, um mau homem - ou ambos?
A situação não melhora quando passamos a raciocinar pelo caminho oposto - o das semelhanças. A idéia é de Platão: ele afirma, em "A República", que todas as coisas do mundo têm uma forma básica, de onde saem tudo o que habita o mundo. Ele dá o exemplo do cavalo: embora os cavalos tenham diferentes cores, tamanhos e pelagem, todos eles têm elementos em comum que permitem se dar um nome só para aquele animal. Estes elementos em comum são a fôrma de onde saem os cavalos.
Esta é a base do nosso sistema linguístico, como estabelece Ferdinand Saussure e sua idéia de que um signo (uma palavra) consiste em um "conceito" - seu significado - e uma "imagem sonora" - o significante. Podemos pensar que o "conceito" equivale à fôrma de Platão, já que, independente do idioma, a conceito de uma cadeira é o mesmo em todos os povos; e a "imagem sonora" seria as palavras que descendem este "conceito" que lhes dá forma, múltiplas em termos de idioma, mas únicas por nascerem da mesma fonte.
O problema, aqui, é que este sistema não é profundo o suficiente para entender o meio termo. Fritjof Capra explica como a linguagem é insuficiente para descrever (e nos fazer entender) os problemas da física quântica; e todo o seu "Tao da Física" pretende convencer que nosso pensamento, criado pelos gregos e aperfeiçoado por Descartes, é incapaz de apreender as características do mundo sub-atômico - justamente a parte da natureza que não podemos observar.
E essa é exatamente a questão: nosso sistema de raciocínio funda-se totalmente em apenas um dos cinco sentidos - a visão. O que não podemos observar, não temos como explicar; e, por causa desta deficiência, não conseguimos compreender os fenômenos naturais que ocorrem dentro de nós: os sentimentos.
Diz a lenda que a palavra "saudade" existe apenas em português (há um termo semelhante em galego: "morriña"). Há vários termos em outros idiomas que captam, porém, apenas um aspecto dentre os vários que a palavra "saudade" possui. No entanto, é possível para alguém explicar a um forasteiro o que é "saudade"? Em 2004, uma empresa de traduções britânica classificou o termo como o sétimo mais difícil de traduzir dentre todas as palavras.
Joelmir Betting uma vez disse: "É praticamente impossível definir o que é ser palmeirense para quem não é, e completamente desnecessário explicar para quem é". Esta é a encruzilhada em que está a palavra "saudade": ela não pode ser apreendida pela razão, é preciso senti-la. Porque quando sentimos, compreendemos o que é saudade em toda a sua extensão; mas aí, não nos é possível exprimir o que sentimos em palavras, em idéias, em conceitos. Ou seja: a palavra "saudade" não descende de um "conceito", de uma "fôrma". É um termo à deriva da razão, pois está ancorada firmemente naquela parte de nós em que o "coração" governa.
A questão é a mesma em relação a outro sentimento praticamente impossível de se apreender pela razão: o tédio. Lars Svendsen, em "Filosofia do Tédio", afirma que o tédio é uma "morte em existência". Svendsen tenta mostrar, aqui, que não é tanto a palavra que nos dará a mensagem, que nos fará compreender o que é o tédio, mas sim a imagem que a concatenação daquelas palavras constrói na nossa imaginação. Ou seja, nem é a imagem sonora ou o conceito que importam, aqui, mas a imagem mental, aquela que formamos dentro de nós e aciona os sentimentos e não a razão, e que nos dará a mensagem pretendida pelo autor.
Há uma subversão implícita na idéia de imagem mental, em relação ao domínio da razão sobre o pensamento ocidental, porque ela abandona por completo todo o sistema que fundamenta o modo como pensamos e, por conseguinte, agimos. Em outras palavras (e idéias), a lógica já não é mais necessária e, sem ela, também se torna inútil a padronização do pensamento: as idéias não precisam ser mais as mesmas para todos. Cada indivíduo pode ter a sua imagem mental.
E o passaporte para isso é a poesia. É interessante notar como a poesia contemporânea se libertou da prisão da forma e do conteúdo para se dedicar totalmente à criação de imagens mentais.
A poesia moderna começa com Dante Alighieri. "A Divina Comédia" indica o caminho para a poesia que virá: o ritmo das palavras se sobrepõe à criação de imagens e o estilo é soberano. Dante escreveu seu épico em 100 cantos, divididos em 3 cânticos, em um esquema de versos chamado terza rima, utilizado pela primeira vez justamente por Dante: stanzas de três versos no padrão aba, bcb, cdc e assim por diante. Cada verso tem 11 sílabas. Alguns críticos afirmam que a preponderância do número 3 no épico (3 cânticos, 3 versos e assim por diante) tem conotação religiosa, simbolizando a Santíssima Trindade.
Com o poema, Dante cristalizou o dialeto toscanês como o idioma nacional da Itália e influenciou vários outros poetas, como Byron, Shelley, Chaucer (todos ingleses, apesar do idioma de Shakespeare dificultar a composição nesta forma) e John Milton.
"Paraíso Perdido" foi escrito quando Milton estava cego - ele ditou a obra para a sua esposa. Milton não utilizou a terza rima neste poema - ele preferiu versos brancos, que mantêm a métrica, mas dispensam a rima. Sua obra foi tão influente para o desenvolvimento da poesia que seu uso dos versos brancos foi chamado de Miltônico, já que seu estilo foi obrigatório para aqueles que tentaram escrever épicos no idioma inglês nos séculos seguintes.
Tanto Alighieri quanto Milton subordinaram suas obras à razão, e usaram a lógica do pensamento ocidental, no formato de estilos, métricas (a simetria é, justamente, uma das forças que nasceram do pensamento ocidental a moldar a criação artística) e rimas. A criação de imagens mentais, nos dois casos, é fortíssima; no entanto, não era isso a preocupação inicial dos dois autores. O ritmo das palavras, que implica em uma lógica de encadeamento, era, talvez, a maior preocupação estilística de ambos, já que viviam em uma época em que a imprensa não existia (Dante) ou era de uso muito restrito (Milton) e, por isso, confiavam na propagação de suas obras pela via oral.
Há um vínculo entre a razão e a emoção na leitura destas obras que subordina a última à primeira - é preciso compreender a imagem mental proposta pelo poeta para poder senti-la. Na poesia contemporânea, a tentativa é justamente quebrar este vínculo e estabelecer uma relação direta entre as palavras que constroem a imagem mental e a compreensão direta pelos sentidos do leitor.
Esta é a proposta de Manuel de Barros. Em nenhum outro livro dele está mais clara sua proposta de destruir a conexão razão/emoção do que em "O Livro das Ignorãnças", onde ele define sua visão de poesia:
"No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras".
Ele propõe um delírio do verbo para criar novas realidades na mente de quem lê:
"No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos --
O verbo tem de pegar delírio."
Em Manoel de Barros, não há necessidade de lógica alguma. É como se ele afirmasse que a subordinação da emoção à razão fosse efetuada pela lógica e, portanto, suprimi-la equivale a anular a razão e falar diretamente à razão. Assim, a imagem mental proposta pelo poema é formada de súbito na mente do leitor, sem que se possa compreender o processo pelo qual ela foi formada. É muito mais uma questão de intuição do que de razão. É preciso, porém, preparar-se para a leitura de um poema de Manoel de Barros. É necessário aprender a "pensar sem lógica" para apreender e desfrutar a experiência de ler um poema em que a construção de imagens mentais é soberana em relação à forma e ao conteúdo.
filosofia do tédio - lars svendsen
Ao me deparar com este livro na Cultura, pensei: "só mesmo um escandinavo para escrever um livro destes". Como a ideia fazia todo o sentido, comprei o livro.
São apenas 170 páginas, divididas em quatro seções. A primeira define o tédio: "O tédio surge quando não podemos fazer o que queremos, ou temos de fazer o que não queremos". É quase uma citação a Camus, em o "Mito de Sísifo", quando o argelino define a vida entediante que se passa em um escritório.
Essa parte é um passeio literário: Svendsen evoca Kierkegaard, Beckett, Pound, Thomas Mann e até o "Livro do Desassossego", de Pessoa (de fato, uma das obras mais entediantes que já li). Através da literatura, o norueguês consegue identificar o problema do tédio dentro da modernidade com precisão cirúrgica.
Na segunda parte, Svendsen faz uma história do tédio. Ele resgata a ideia milenar de "acédia" que, segundo Pôntico, seria o demônio do meio-dia: estando o sol no meridiano, inclemente e aparentemente imóvel sobre um céu escaldante, tudo parece parado e sem sentido; portanto, para um monge, superar a acédia seria se tornar capaz de vencer todas as tentações e privações e, aí sim, devotar sua vida à Deus.
Da acédia, segundo Svendsen, nasce o tédio moderno (ele recusa a ideia de pós-modernidade, o que veremos depois). Aqui, é como se ele se baseasse no economista canadense John Kenneth Galbraith e o conceito de "sociedade afluente": em um tempo em que todas as necessidades básicas estão satisfeitas, o que há com o que se importar? Por isso o consumismo, o consumo de drogas e o vandalismo: artimanhas fúteis para atenuar o peso do tédio.
A terceira parte dedica-se a analisar a visão do controverso alemão Heidegger sobre o tema. Entre 1929 e 1930, Heidegger proferiu uma série de conferências sobre os principais problemas da metafísica: o mundo, a finitude e a solidão. É a parte mais densa do livro, porque baseia-se quase que apenas nas ideias extremamente abstratas do filósofo alemão.
No entanto, é fundamental entender esta parte, porque ela lança as bases para o capítulo final da obra, onde Svendsen faz uma ética do tédio. Logo no começo, o autor faz uma ressalva: "Não há solução para o problema do tédio: é isso que o torna um problema". Então, Svendsen discorre sobre as posturas possíveis do indivíduo em relação ao problema do tédio.
O livro é essencial para se entender os tempos bicudos que estamos atravessando, mas sua principal virtude é recolocar a filosofia em seu lugar natural: o de explicar o mundo e aqueles que vivem nele. A escola francesa de filosofia, principalmente dos anos 60 aos 80, fugiram da realidade e se enclausuraram em métodos, em artes abstratas e em releituras pontiagudas de clássicos do passado. Svendsen parece sinalizar para uma retomada da filosofia mundana - vale lembrar que, para os gregos, a filosofia era uma tentativa de explicar o mundo...
Mas nem tudo são flores. A recusa de Svendsen em reconhecer a pós-modernidade é calcada em argumentos difíceis de se aceitar. Ao atacar o polonês Zygmund Bauman, ele argumenta que ainda somos românticos porque o pós-modernismo, como ideologia, é algo do passado; o pós-modernismo de Bauman seria, então, um Romantismo exacerbado, porque apenas eleva as características românticas à enésima potência.
Também tenho meus problemas com Bauman, mas não acredito que a sua ideia de pós-modernismo coincida com a visão de Svendsen. Em primeiro lugar, chamar o pós-modernismo de ideologia me parece uma visão restrita: uma ideologia é algo imposto, como o consumismo; o pós-modernismo surgiu como um comportamento aleatório que logo se tornou dominante. Depois, Bauman não inventou a definição de pós-modernismo: há também Harvey, Vattino e mesmo Habermas escrevendo sobre o tema. Porém, isso não estraga o livro. "Filosofia do Tédio" é um dos livros essenciais para se começar a tentar entender nosso tempo. Escrito em uma linguagem ágil e simples, a obra nem parece ser de filosofia contemporânea. Se "Mito de Sísifo" lhe agrada, este aqui não irá decepcionar.
São apenas 170 páginas, divididas em quatro seções. A primeira define o tédio: "O tédio surge quando não podemos fazer o que queremos, ou temos de fazer o que não queremos". É quase uma citação a Camus, em o "Mito de Sísifo", quando o argelino define a vida entediante que se passa em um escritório.
Essa parte é um passeio literário: Svendsen evoca Kierkegaard, Beckett, Pound, Thomas Mann e até o "Livro do Desassossego", de Pessoa (de fato, uma das obras mais entediantes que já li). Através da literatura, o norueguês consegue identificar o problema do tédio dentro da modernidade com precisão cirúrgica.
Na segunda parte, Svendsen faz uma história do tédio. Ele resgata a ideia milenar de "acédia" que, segundo Pôntico, seria o demônio do meio-dia: estando o sol no meridiano, inclemente e aparentemente imóvel sobre um céu escaldante, tudo parece parado e sem sentido; portanto, para um monge, superar a acédia seria se tornar capaz de vencer todas as tentações e privações e, aí sim, devotar sua vida à Deus.
Da acédia, segundo Svendsen, nasce o tédio moderno (ele recusa a ideia de pós-modernidade, o que veremos depois). Aqui, é como se ele se baseasse no economista canadense John Kenneth Galbraith e o conceito de "sociedade afluente": em um tempo em que todas as necessidades básicas estão satisfeitas, o que há com o que se importar? Por isso o consumismo, o consumo de drogas e o vandalismo: artimanhas fúteis para atenuar o peso do tédio.
A terceira parte dedica-se a analisar a visão do controverso alemão Heidegger sobre o tema. Entre 1929 e 1930, Heidegger proferiu uma série de conferências sobre os principais problemas da metafísica: o mundo, a finitude e a solidão. É a parte mais densa do livro, porque baseia-se quase que apenas nas ideias extremamente abstratas do filósofo alemão.
No entanto, é fundamental entender esta parte, porque ela lança as bases para o capítulo final da obra, onde Svendsen faz uma ética do tédio. Logo no começo, o autor faz uma ressalva: "Não há solução para o problema do tédio: é isso que o torna um problema". Então, Svendsen discorre sobre as posturas possíveis do indivíduo em relação ao problema do tédio.
O livro é essencial para se entender os tempos bicudos que estamos atravessando, mas sua principal virtude é recolocar a filosofia em seu lugar natural: o de explicar o mundo e aqueles que vivem nele. A escola francesa de filosofia, principalmente dos anos 60 aos 80, fugiram da realidade e se enclausuraram em métodos, em artes abstratas e em releituras pontiagudas de clássicos do passado. Svendsen parece sinalizar para uma retomada da filosofia mundana - vale lembrar que, para os gregos, a filosofia era uma tentativa de explicar o mundo...
Mas nem tudo são flores. A recusa de Svendsen em reconhecer a pós-modernidade é calcada em argumentos difíceis de se aceitar. Ao atacar o polonês Zygmund Bauman, ele argumenta que ainda somos românticos porque o pós-modernismo, como ideologia, é algo do passado; o pós-modernismo de Bauman seria, então, um Romantismo exacerbado, porque apenas eleva as características românticas à enésima potência.
Também tenho meus problemas com Bauman, mas não acredito que a sua ideia de pós-modernismo coincida com a visão de Svendsen. Em primeiro lugar, chamar o pós-modernismo de ideologia me parece uma visão restrita: uma ideologia é algo imposto, como o consumismo; o pós-modernismo surgiu como um comportamento aleatório que logo se tornou dominante. Depois, Bauman não inventou a definição de pós-modernismo: há também Harvey, Vattino e mesmo Habermas escrevendo sobre o tema. Porém, isso não estraga o livro. "Filosofia do Tédio" é um dos livros essenciais para se começar a tentar entender nosso tempo. Escrito em uma linguagem ágil e simples, a obra nem parece ser de filosofia contemporânea. Se "Mito de Sísifo" lhe agrada, este aqui não irá decepcionar.
elogio ao erro
Manu Conceição disse: "É necessário o erro, o desvio, uma medida fora da linha. Para mulheres e para homens. A beleza padrão é algo de que todos gostam. Mas o melhor mesmo não é gostar, é se apaixonar, amar. E para isso acontecer tem que ter o quê a mais. Aquele algo que faça a diferença".
Se entendi bem o que a Manu Conceição disse, a diferença é a ousadia: ir lá e fazer porque se quis. O "quê a mais" é sentir-se livre para ir lá e fazer, e pronto.
Mas quem tem a coragem? Vivemos em um tempo politicamente correto, que é a desculpa para a mediocridade, acomodação, o "porto seguro". Nobody moves and nobody gets hurt, já se diz há tempos.
Daí que todas as decisões são pautadas pelo medo, que é o outro lado da ousadia. Ninguém quer transgredir: todos querem um emprego seguro e estável, relacionamentos onde se pode afogar as carências e diversões baratas e que não causem problemas depois. O prazer se torna proibido. A diversão é uma heresia.
Então fica assim: o trabalho é legal, o relacionamento dá futuro e a vidinha segue. E a gente finge que não é preciso se divertir, que a transgressão é coisa dos "alternativos" e que somos felizes assim.
E aí, quando ficarmos velhos e chegar a hora do balanço final (aquela pergunta: "e aí, essa vida valeu a pena?"), a gente tentará fingir, mais uma vez, que sim, valeu a pena ter andado nessa linha que nivela tudo e a todos por baixo, que torna tudo um tédio só, e que todas as nossas vontades, que surgiram pela vida e foram ignoradas, não eram mesmo possíveis; só o que realmente fizemos, mesmo que a contragosto (em nome de um futuro que sempre insiste em nunca chegar), era o que deveríamos fazer, por que assim esperaram de nós. Quem esperou isso de nós? Um emprego maçante, um relacionamento plano, uma vidinha lenta e... tediosa. E porque o futuro nunca chega? Porque não vivemos o presente.
A transgressão implica em aproveitar o momento que se revela agora. A ousadia é um estilo de vida. Como diz o Miguel Esteves Cardoso, em um texto que reproduzi aqui há pouco tempo, temos de deixar de pensar em carreira, consumo, cultura e família; não se pode vender o hoje para comprar o amanhã.
A revolução que nossos tempos tanto espera pode estar em, justamente, não se importar com o amanhã, viver apenas o hoje: transgredindo o que nos é imposto, dando de ombros para o trabalho, para o consumo e para todas as outras rédeas. Seja no amor, como propõe a Manu, seja para vida toda. E deixar que o erro não seja um castigo, mas uma lição: não a de que transgredir não valha a pena, mas sobre como transgredir mais - e melhor.
Se entendi bem o que a Manu Conceição disse, a diferença é a ousadia: ir lá e fazer porque se quis. O "quê a mais" é sentir-se livre para ir lá e fazer, e pronto.
Mas quem tem a coragem? Vivemos em um tempo politicamente correto, que é a desculpa para a mediocridade, acomodação, o "porto seguro". Nobody moves and nobody gets hurt, já se diz há tempos.
Daí que todas as decisões são pautadas pelo medo, que é o outro lado da ousadia. Ninguém quer transgredir: todos querem um emprego seguro e estável, relacionamentos onde se pode afogar as carências e diversões baratas e que não causem problemas depois. O prazer se torna proibido. A diversão é uma heresia.
Então fica assim: o trabalho é legal, o relacionamento dá futuro e a vidinha segue. E a gente finge que não é preciso se divertir, que a transgressão é coisa dos "alternativos" e que somos felizes assim.
E aí, quando ficarmos velhos e chegar a hora do balanço final (aquela pergunta: "e aí, essa vida valeu a pena?"), a gente tentará fingir, mais uma vez, que sim, valeu a pena ter andado nessa linha que nivela tudo e a todos por baixo, que torna tudo um tédio só, e que todas as nossas vontades, que surgiram pela vida e foram ignoradas, não eram mesmo possíveis; só o que realmente fizemos, mesmo que a contragosto (em nome de um futuro que sempre insiste em nunca chegar), era o que deveríamos fazer, por que assim esperaram de nós. Quem esperou isso de nós? Um emprego maçante, um relacionamento plano, uma vidinha lenta e... tediosa. E porque o futuro nunca chega? Porque não vivemos o presente.
A transgressão implica em aproveitar o momento que se revela agora. A ousadia é um estilo de vida. Como diz o Miguel Esteves Cardoso, em um texto que reproduzi aqui há pouco tempo, temos de deixar de pensar em carreira, consumo, cultura e família; não se pode vender o hoje para comprar o amanhã.
A revolução que nossos tempos tanto espera pode estar em, justamente, não se importar com o amanhã, viver apenas o hoje: transgredindo o que nos é imposto, dando de ombros para o trabalho, para o consumo e para todas as outras rédeas. Seja no amor, como propõe a Manu, seja para vida toda. E deixar que o erro não seja um castigo, mas uma lição: não a de que transgredir não valha a pena, mas sobre como transgredir mais - e melhor.
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